O Petro, uma nova Contradição do Capitalismo?

19 de Fevereiro de 2018, por IELA


Texto de Paulo Costa, mestre em Antropologia Social pela UFSC.

O Secretário de Estado Norte-Americano, Rex Tillerson – também conhecido como “T Rex” – o mesmo que celebrou as evidências que apontavam para um recente aumento na miséria extrema da Coréia do Norte como um sinal de que as sanções impostas pelos Estados Unidos estariam funcionando [1] , deu ainda outra típica declaração de paz, desta vez sobre a Venezuela, na qual afirmava que uma intervenção direta dos Estados Unidos no país não se fazia necessária uma vez que estava convencido de que o exército venezuelano tomaria as medidas cabíveis – e, em suas palavras, garantiria um “nice exile” para Maduro em Cuba [2]. Não é difícil ler o que está nas entrelinhas: “vão em frente que nós garantimos apoio por trás (como, inclusive, já estamos fazendo na Síria e já fizemos na Líbia, no Chile, na Nicarágua…)”.

A pergunta que fica é: será uma mera coincidência o fato de esta declaração ser feita há poucas semanas do lançamento da ousada iniciativa do governo venezuelano de criar a primeira criptomoeda do mundo a ter apoio de um Estado Soberano? Seguramente, o próprio Tillerson responderia que sim – e eu não estou aqui para defender o contrário: Tillerson pode ser suficientemente catequizado na doutrina imperialista a ponto de acreditar, visceralmente, no fim da história e nas “ausências de alternativa”. No entanto, o que podemos esperar no caso do projeto do Petro funcionar e da hiperinflação venezuelana ser controlada é que os Estados Unidos não tenham efetivamente outra opção senão a intervenção militar mais bruta. Ao final deste artigo, tentarei explicar o porquê disto. Mas, primeiro, vamos tentar entender o que é o Petro.
 
Petro
 
Há otimistas com o projeto [3] – escusado dizer que estes estão fora da mídia alinhada com os interesses de Washington, a qual ignora o lançamento do Petro ou que o trata como uma iniciativa amalucada (afinal, inovação é uma palavra que, no léxico do colonizador, é incompatível com América Latina). Diferentemente da grande maioria das criptomoedas existentes, o valor do Petro não será determinado pela demanda pela própria moeda digital, coisa que tem ensejado as oscilações gritantes que temos visto nos últimos meses. Um país que tivesse uma moeda que, de uma hora para outra, experimentasse uma desvalorização ou valorização de 50% [4] provavelmente não se aguentaria em pé por muito tempo, razão pela qual o governo venezuelano optou por garantir uma certa estabilidade no Petro com alguns milhares de barris de petróleo e outros recursos minerais. como ouro e diamante, extraídos no país. Portanto, quem comprar o Petro estará, na realidade, comprando um ativo que valorizará ou desvalorizará conforme o preço deste conjunto de commodities no mercado internacional [5].
 
A estratégia, basicamente, consistirá em ir, gradativamente, transformando o Petro numa moeda de uso corrente na Venezuela: permitir que os cidadãos paguem seus impostos, que recebam parte de seus salários, que transações internacionais sejam feitas com a divisa, ou seja, ir, pouco a pouco, reduzindo o uso dos bolívares e, consequentemente, diminuindo o poder dos grandes investidores de determinar o valor da moeda corrente. Trata-se, em particular, de uma guerra declarada contra a Dolar Today, agência instalada nos Estados Unidos que é usada como base para o determinar a taxa de câmbio paralelo e que tem depreciado sistematicamente o valor dos bolívares nos últimos anos[6].
 
Já deve estar claro o motivo do ceticismo: um ortodoxo diria que este é apenas mais um exemplo de uma tentativa de contenção “artificial” (e “totalitária”) das variações “naturais” dos preços feita por um Estado Nacional. Ludwig von Mises, em seu célebre livrinho distribuído por João Dória Júnior nas escolas municipais de São Paulo [7],  afirmava que uma tal tentativa estaria fadada ao fracasso, uma vez que as forças econômicas (pelo menos no capitalismo) seriam muito mais numerosas e variáveis do que qualquer Estado poderia sonhar em regular. A grande ironia, por outro lado, é que o mesmo Mises defendia que o valor do dinheiro fosse vinculado ao preço do ouro, isso para evitar eventuais “aventuras populistas”, uma vez que, como dizia o próprio autor, a coisa mais fácil que havia para um governante seria imprimir e distribuir papel moeda.
 
Só que, no caso dos bolívares, o olhar meramente quantitativo do dinheiro em circulação parece estar longe de explicar sua desvalorização. Ainda que os economistas mainstream estejam insistindo na história de que o problema todo se resumiria às “extravagâncias populistas” de Maduro e sua trupe, a quantidade de dinheiro criado recentemente está muito aquém de dar conta de explicar a hiperinflação do país[8]. Tampouco  parece muito preciso resumir tudo à queda no valor das commodities, tal como intelectuais, inclusive da esquerda, como Noam Chomsky, tem feito. É claro que essa seria uma variável impossível de se ignorar em se tratando de um país que depende tanto da exportação do petróleo.
 
No entanto, como afirma o economista venezuelano Alfredo Serrano[9] , estas são apenas algumas variáveis em meio a outras, mais importantes, segundo o mesmo, que estariam convergindo para tornar a crise tão avassaladora. Para Serrano, não poderíamos ignorar o fato (a meu ver, bastante óbvio) de que uma subida de preços implica num aumento de lucro para aqueles que estão vendendo, como também para os produtores (oligopolizados) e para os intermediários de transações internacionais. Mas, além disso, eu salientaria, ainda, duas coisas:
 
Em primeiro lugar, é importante nunca esquecermos que os grandes capitalistas não são máquinas de calcular que operam apenas com números: são pessoas com medos, paixões, ideologias e que, cotidianamente, vão com a massa mesmo sem entender muito bem o que está acontecendo, de modo que mesmo que descontemos as antipatias por Maduro, ainda assim não poderíamos ignorar o efeito boiada. Para usar um exemplo mais próximo de nós: por que será que a bolsa tendia a subir e o real a valorizar todas as vezes que o “mercado” se convencia de que Dilma seria, de fato, golpeada, isso levando em conta que ela já havia iniciado o ajuste fiscal e já havia nomeado Joaquim Levy Ministro da Fazenda? Quer dizer, por mais que o universo dos grandes capitalistas pareça ser o lugar por excelência de pessoas completamente atomizadas (individualistas, egoístas…) a verdade é que um investidor está sempre tentando entender o que se passa na cabeça dos outros. Há, inclusive, o trabalho de campo levado a cabo numa bolsa de valores pela antropóloga Lúcia Helena Alves Müller onde a autora mostra, entre outras coisas, como os grandes investidores tinham a capacidade de trazer atrás de si uma leva de peixinhos menores.
 
Resumindo: na cabeça dos grandes capitalistas, Maduro no poder significa um mau investimento;
Em segundo lugar, não podemos esquecer dos famigerados interesses, tanto dos nacionais (das elites venezuelanas) quanto dos internacionais (dos Estados Unidos, em particular). De um lado, é importante destacar que os privilégios da elite nacional dependem diretamente da pobreza das classes baixas. Como no caso do Brasil pós-golpe, o desemprego é a solução das elites para manter um “clima econômico favorável” (salários baixos e inflação controlada). Além disso, o poder econômico, como sabemos, é facilmente conversível em poder político, não apenas porque os grandes donos do capital são capazes de comprar forças políticas diretamente (através do lobby e do financiamento de campanhas, por exemplo) como também podem com mais facilidade manter o monopólio do capital cultural e social de mais prestígio naquela sociedade.
 
Por outro lado, a possibilidade da Venezuela se emancipar politicamente deve soar particularmente perigosa aos Estados Unidos, pois por mais que a ideologia pós-modernista afirme que vivemos num mundo “pós-trabalho”, “pós-grandes empresas”, o que tem ficado claro, desde a eleição de Donald Trump, é que o projeto dos conservadores Norte Americanos é o de re-estabelecer a hegemonia estadunidense na parte mais concreta da economia global. Quem disser que isso é “teoria da conspiração” é porque nunca ouviu uma fala do próprio Trump por inteiro ou de seu ex-assessor, Steve Bannon[10] , ou de algum republicano tão influente quanto David P. Goldman[11].
 
E, para que este projeto fosse bem sucedido, seria preciso uma América Latina subserviente que oferecesse uma mão de obra desqualificada e barata para executar aqueles trabalhos que os próprios estadunidenses não querem executar – e que importasse seus produtos com alto valor agregado. Num momento no qual a China vem ganhando influência num raio que vai desde o sudeste asiático até a África, o que resta como alternativa mais acessível para a extração de matéria-prima e mais-valia somos nós, latino-americanos. Ainda ligado a isso, devemos levar em conta que a aproximação da Venezuela e suas “maiores reservas de petróleo do mundo”, com a China, cuja escassez energética pode ser uma arma para conter seu crescimento, não poderia ser vista com bons olhos pelos Estados Unidos.
 
Portanto, um eventual sucesso do Petro, além de se revelar um tremendo “mau exemplo” da Venezuela para o resto do terceiro mundo (conseguir controlar uma crise sem passar pelas pseudo-soluções do consenso de Washington) pode vir a representar mais um passo dado em direção a um mundo “multipolarizado”. Estes são os motivos porque, a meu ver, não será permitido que o Petro dê certo em hipótese alguma.