O vírus da desigualdade

10 de Fevereiro de 2021, por IELA


A Oxfam, organização nascida em Oxford, Inglaterra, em 1942, é hoje uma confederação que congrega 19 organizações e mais de três mil parceiros. Seu objetivo é a busca de soluções para o problema da pobreza, desigualdade e da injustiça, por meio de campanhas, programas de desenvolvimento e ações emergenciais. Dentre as várias ações que desenvolve estão as pesquisas sobre a pobreza no mundo. 

Durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, a organização divulgou um relatório chamado “A desigualdade do Vírus”, no qual aponta dados sobre a situação mundial durante a pandemia. Segundo o documento as mil (1000) pessoas mais ricas do mundo recuperaram suas perdas causadas pela COVID-19 em apenas nove meses, enquanto que as pessoas mais pobres levarão mais de uma década para conseguir superar os impactos econômicos causados pela pandemia. Para a Oxfam os pobres levarão 14 vezes mais tempo para voltar aos níveis pré-pandêmicos do que os mais ricos. 

O relatório aponta ainda que a COVID-19 tem potencial para aumentar a desigualdade econômica em quase todos os países, sendo a primeira vez que isso acontece simultaneamente desde há mais de um século. E essa informação vem baseada em outra pesquisa encomendada pela Oxfam, que entrevistou 295 economistas de 79 países, sendo que 87% foram categóricos quanto ao aumento da desigualdade em grandes proporções. 

A pesquisa mostra que o sistema econômico mundial capitalista é o que permite que uma elite super-rica acumule riqueza em meio à pior recessão desde a Grande Depressão enquanto bilhões de outras pessoas precisam lutar para não morrer em meio a pandemia, seja de doença ou de falta de condições materiais para existir. As fortunas dos multimilionários atingiram 11 bilhões de dólares em dezembro de 2020, o equivalente à despesa total de recuperação COVID-19 dos governos do G20.

Ainda conforme o relatório, a crise da pandemia já está acabada para a elite mundial. Tanto que os dez homens mais ricos do mundo viram sua fortuna aumentar em meio trilhão de dólares desde o começo da pandemia, o que seria um soma mais do que suficiente para pagar, por exemplo, vacina para toda a gente na terra e ainda garantir que ninguém seja empurrado para a pobreza. Mas, em vez de ser distribuída, essa fortuna se acumula em poucas mãos enquanto o desemprego aumenta em centena de milhões. Nove de cada 10 habitantes de países pobres ficarão sem vacina em 2021, enquanto que os países mais ricos compraram uma quantidade de vacinas suficiente para imunizar suas populações inteiras por três vezes.

O documento também aponta que as mulheres, 70% da mão de obra global na área da saúde e dos cuidados sociais, são as mais duramente atingidas pela crise as que mais se colocam em risco. O relatório revela que os negros no Brasil têm 40% a mais de probabilidade de morrer de COVID-19 do que as pessoas brancas, assim como cerca de 22 mil pessoas negras e hispânicas nos Estados Unidos ainda estariam vivas se experimentassem as mesmas taxas de COVID-19 dos brancos. A infecção e as taxas de mortalidade são mais elevadas nas áreas mais pobres de países tais como a França, Índia e Espanha enquanto as regiões mais pobres da Inglaterra experimentam taxas de mortalidade que são o dobro daquelas das áreas mais ricas. As mulheres foram as que mais perderam empregos durante a pandemia em todo o mundo e a população negra foi a que mais se contaminou e teve o maior índice de mortes devido à covid-19 no período.

A organização sugere que seja criado um  imposto temporário sobre lucros excessivos ganhos pelas 32 corporações globais que ganharam o máximo durante a pandemia, o que poderia resultar em um total de 104 mil milhões de dólares. Isto seria suficiente para providenciar benefícios de desemprego para todos os trabalhadores e apoio financeiro para todas as crianças e pessoas idosas em países de baixo e médio rendimento.