Sobre passeatas e construção de realidades

6 de Dezembro de 2016, por Elaine Tavares


Não há problema nenhum de as pessoas saírem às ruas para manifestar sua alegria ou descontentamento. É um direito sempre defendido por todos os que, sistematicamente, participam de protestos e lutas. Num país onde as instituições estão fechadas à participação popular, o único espaço no qual a voz pode se erguer são as ruas.  E ainda que muitos dos que marcharam nesse domingo tenham uma posição clara e definida pela volta de um regime autoritário aos moldes da ditadura militar – o que é grotesco - não dá para deixar de ver que entre os manifestantes também estão as pessoas que verdadeiramente querem ver estancar a corrupção endêmica no país. Uma corrupção que não está unicamente nos partidos ou nos políticos. Ela existe em todas as instâncias do nosso tecido social. 

A pauta do combate à corrupção é uma pauta que toca a todos e é justamente por isso que a direita tradicional aproveita o mote para envolver aqueles que a mídia chama de “cidadãos de bem”. Porque, em última instância, não há criatura na terra que, sendo de bem, não seja contra a corrupção. Daí o apelo que essa pauta tem, conseguindo levar para a rua pessoas de tão variadas ideias. Há que pensar sobre isso e sobre o uso das ruas para as lutas também da direita organizada, que hoje usa movimentos como o Movimento Brasil Livre e o Vem pra Rua, para esconder as siglas partidárias, tão rechaçadas pela maioria da população. Um pouco de observação atenta e pode-se ver a ligação desses movimentos com partidos como o DEM e o PSDB.

Um pouco de história

Nos últimos anos, ainda na ditadura, as primeiras caminhadas pelas ruas foram no período da luta pela anistia, lá pelo final de 1978. O governo militar estava nos estertores e as pessoas já se arriscavam a realizar passeatas, depois de um longo período de repressão brutal. Por todo o país aconteciam marchas pedindo a volta dos exilados, gente que tinham saído do Brasil justamente por conta da perseguição do regime de exceção. Era um clamor nacional, uma pauta humanitária que unia a esquerda e pessoas sem muita ligação com a política institucional.  Mas, as caminhadas, sempre pacíficas, recebiam o mesmo tratamento de hoje: muita polícia, muito porrete, prisões. E eram um risco concreto para a vida de quem participava.

Naqueles dias a mídia comercial, completamente atada aos interesses da ditadura, não divulgava as caminhadas que cresciam, e cresciam. Era como se nada estivesse acontecendo. Quando não havia como negar, quando ficava grande demais, os manifestantes eram atacados: os “comunistas”, os “subversivos”, os “desocupados”. Palavras um pouco diferentes das de hoje, mas com o mesmo sentido. Os que marchavam eram sempre “do mal”, sem qualquer contextualização. A realidade era invertida. A mentira era a lei. 

Só que aquela era uma vaga que não tinha parada, e dia a dia crescia, com mais e mais gente saindo para a rua, até que em agosto de 1979 foi assinada a Lei da Anistia. Veio a hora, então, de as gentes saírem de novo para a rua, celebrando a volta dos companheiros e companheiras de sonho. A partir dali as ruas seguiram sendo ocupadas na luta pelas eleições diretas, outra pauta que unificava toda a nação brasileira. Manifestações gigantescas, também invisibilizadas pela TV e pelos jornalões.  Ainda assim, todo aquele povo sem medo seguiu se manifestando, fazendo acontecer o fim do regime militar. E quando ele acabou, misteriosamente, na mídia, as pessoas que haviam lutado e arriscado suas vidas passaram a ser aquelas que “construíram a democracia”. Com o passar do tempo, as manifestações tão demonizadas entraram para a história como um momento de grande importância para a nação. Porque a realidade está fora dos meios de comunicação e, ao se impor, exige que o discurso dos meios mude. 

Daí a necessidade de uma reflexão sobre a cobertura que a mídia deu às manifestações desse domingo, mais uma vez querendo inventar uma realidade que não existe. Sempre apostando na mentira e no encobrimento. Primeiro elemento a ser analisado: a mídia cobriu os atos desde as primeiras horas, como se fosse um grande acontecimento nacional, incorporando o mote de combate à corrupção, sem matizar os diferentes grupos que ali se manifestavam. Boletins de hora em hora no rádio, na TV e na internet, uma espetacularização sem conteúdo. Um bom motivo para desconfiar. Por que, afinal, essa mesma mídia, não deu igual cobertura para as manifestações contra a PEC 55, que mexerá com a vida de milhões de pessoas ao congelar gastos no social? Da mesma forma como considera bom para as finanças o congelamento dos investimentos, os meios de comunicação não mostram o outro lado. Se as finanças ficam equilibradas, como ficam as gentes?  Isso não se fala. 

Segundo elemento: como podem os meios de comunicação de massa saudar como “importantes” e “necessárias” as atividades dos grupos que pedem intervenção militar? Que mundo é esse em que algumas pessoas vão às ruas pedir o retorno da censura, da morte, da tortura e das desaparições? Como podem pedir isso, se isso é considerado um crime hediondo. Por que então, os meios não explicam a diversidade de grupos que se manifestam na rua? E que entre os que ali marcham realmente preocupados com a corrupção, há também os que atuam pelo retorno do terror? Claro, se a mídia mostrasse quem organiza e o que defendem, muitos cidadãos não participariam. 

Terceiro elemento: as manifestações pedindo o fim da corrupção e a volta do regime militar acontecem sem incidentes com a polícia. Nenhuma repressão. Pelo contrário, são protegidas pelos policiais e as pessoas tiram “selfies” com os fardados, tidos como heróis. Isso acontece porque as manifestações não se insurgem contra o poder. Elas, de fato, não incomodam quem está no comando da vida no país. O fim da corrupção é uma pauta vaga, porque não define o como. E os que defendem o totalitarismo do poder Judiciário, nesse momento, estão ajudando os velhos políticos corruptos a colocar por terra o tal do estado democrático e de direito burguês. Afinal, como dizia Jesus: “a lei existe para o homem e não o homem para a lei”. 

Já os trabalhadores que lutam contra a PEC da morte, que congela os gastos com saúde, educação, segurança e moradia por 20 anos, esses são chamados de “bandidos”, “bandidos”, como se pode ver no vídeo que mostra um policial bastante alterado, partindo para cima dos manifestantes, em Brasília, com bombas e balas de borracha. A polícia é ensinada a defender o estado, não a “res publica”. 

Assim, não mostrando os matizes e os objetivos que levam as pessoas às ruas, a mídia vai cumprindo seu papel de fiel defensora da classe dominante. Mentindo e inventando realidades. Por isso a luta contra a corrupção “é boa”, enquanto a luta contra o congelamento dos investimentos públicos “é má”. Na verdade, cada uma dessas lutas tem de ser analisada na sua totalidade, com todos os matizes que carregam.

Possivelmente, a despeito da mídia, a história desenhará lá na frente o aspecto totalizante dessas manifestações rua. E, de novo, aqueles que hoje batalham contra a barbárie imposta pelo capital serão reconhecidos como os “importantes sujeitos” que lutaram contra o terror do congelamento dos investimentos sociais. Manifestando-se contra a violência, contra a destruição de direitos, pela vida. Assim como foi durante o período da ditadura. Já os que saíram às ruas domingo serão mostrados como os que, ainda que bem intencionados, acabaram engrossando a fileira daqueles que pediam a intervenção militar – coisa que carrega ainda simbolicamente o sentido da morte, medo, violência e perseguição. Basta uma olhada nos cartazes que as pessoas  carregam, os dizeres que defendem. Tudo está às claras. 

É sempre bom lembrar que as ruas seguem sendo o espaço das lutas do povo. Mas, é preciso também perceber que algumas dessas lutas acontecem sem riscos, sem truculência da polícia. Há que se perguntar por quê?  

Está claro que o que se vive é a luta de classes e é natural que os policiais estejam do lado de quem defende o uso da força contra os trabalhadores que enfrentam as políticas recessivas do estado. O estado que é dominando pelo capital. Porque os policiais, ainda que sejam trabalhadores, no geral, defendem a classe dominante. O antagonismo está explícito. Será preciso ainda muito trabalho para que esses trabalhadores - que hoje cumprem a triste missão de reprimir, bem como os que gritam pela volta dos militares - compreendam o verdadeiro sentido da segurança pública. Lá na frente, quando vier o doloroso resultado das medidas tomadas pelo Congresso Nacional contra a maioria da população, talvez alguém possa despertar. 

O debate em questão pretende colocar em pauta justamente a diferença que existe entre a ideia de sociedade defendida pelos trabalhadores em luta, e a que defende a volta dos militares. É preciso ter tudo muito claro e depois, cada um e cada uma, observando os objetivos de cada concepção de mundo, que decida seu caminho. Mesmo aqueles que hoje marcham, seguindo com a consciência ingênua, o que acreditam ser apenas uma luta contra a corrupção. Não tenho dúvidas de que se tiverem as informações e compreenderem o que realmente acontece, passarão a engrossar as fileiras dos que atuam contra as medidas arrochantes do governo. Medidas que buscam manter em equilíbrio, não as contas, mas os bancos e os ricos.

Para os trabalhadores em luta, na história recente, desde as caminhadas pela anistia, o horizonte é a vida boa para todos os que produzem riquezas, numa forma de governo na qual o poder seja exercido pela esmagadora maioria. Ao contrário dos que defendem a mão-dura dos militares, do poder totalitário, os outros defendem a democracia radical, aquela na qual as pessoas participam e decidem juntas. É claro que é bem mais cômodo ter alguém definindo as coisas pela gente. Democracia é coisa difícil, precisa comprometimento, participação, paciência. Ainda assim, há os que preferem o caminho árduo, espinhoso e longo, que é também cheio de belezas e de encontros amorosos. O que move esses princípios é o amor, unicamente o amor. O desejo de que todas as pessoas no mundo tenham o direito de comer, dormir, morar, sentir-se seguro, dançar e ser feliz.

É fato que esse sentimento oceânico que move os lutadores sociais encontra a dureza da luta de classes. E há que enfrentar os que impedem esse sonho de amor. Isso será feito. Não há saída. Os trabalhadores seguirão tomando as ruas e lutando pela construção desse mundo sem classes, no qual o trabalho não será mais do capital, mas das gentes. Mas, nesse meio tempo, é preciso também conversar com as gentes que estão fora do circuito dos partidos e movimentos organizados. Essa é também uma longa batalha de comunicação.