Tiempos recios (um bom escritor, com más ideias)

16 de Janeiro de 2020, por Waldir Rampinelli


O livro Tiempos Recios, do escritor Mario Vargas Llosa, mostra toda a trama que envolve a queda do governo eleito de Jacobo Árbenz Guzmán, na Guatemala, em 1954, bem como o assassinato do traidor e golpista coronel Carlos Castillo Armas, além das participações de sua amante Marta Borrero Parra, do infiltrado dominicano,  Johnny Abbes García e do representante da Agência Central de Inteligência (CIA), “Mike” na morte do ditador usurpador.

O livro é bastante fiel aos fatos históricos, responsabilizando os Estados Unidos– de modo especial a CIA, a grande imprensa e a United Fruit Company – pela farsa criada de que o governo Árbenz havia se tornado uma cabeça de praia do comunismo internacional na América Latina. No entanto, em nenhum momento o autor se utiliza do conceito imperialismo, o qual seria o mais adequado para o caso.

Vargas Llosa ignora completamente a grande civilização maya que se estende por   todo   o   país,   portadora  de  uma   cultura   avançada,   adiantada   e   resistente   aos conquistadores de ontem e aos dominadores de hoje. Chega a ser preconceituoso ao citar os “indígenas ignorantes” (p. 18), conectando o passado com a barbárie e o presente com a civilização. Faz questão de esquecer que os mayas criaram a cifra zero, montaram os primeiros observatórios astronômicos do continente americano, fundaram universidades e estabeleceram um padrão de vida desenvolvida para a época.

O autor do livro não mostra, em nenhum momento, que tudo isso voltou a ser aniquilado pelas ditaduras que se sucederam à queda de Árbenz. Embora procure ater-se aos fatos históricos, romanceando-os, comete um erro quando, em um diálogo entre o presidente Árbenz e o embaixador estadunidense John Emil Peurifoy, este afirma que a CIA “é uma instituição muito eficiente, pois já o comprovaram os nazis durante a guerra” (p. 231).

Lembro ao Vargas Llosa que a CIA foi criada em 1947 no contexto do pós-guerra, cometendo uma série  de crimes ao longo destas sete décadas, tais como: atuar, por meio da guerra psicológica e da corrupção de lideranças,   na   sabotagem   ao   avanço   dos   países   socialistas;  conspirar,   através   da desinformação   e   do   terror   de   Estado,   contra   os   governos   nacional-populares,   os movimentos   de   libertação   dos   povos   e   o   sindicalismo   de   resistência;   realizar espionagem industrial, utilizando-se do “imperialismo do dólar”, para as multinacionais estadunidenses; manipular planos econômicos  de vários países, inviabilizando pela contra informação, uma saída para um estágio de capitalismo nacional e autônomo; e violar,   com   a   ajuda   de   empresas   de   telecomunicações,   mensagens   eletrônicas   e telefônicas de cidadãos do Brasil, da América Latina e do mundo.

Se por um lado a CIA tentava inviabilizar a consolidação de um sistema superior ao capitalismo, por outro buscava   criar   mecanismos   que   extraíssem   o   excedente   econômico   dos   países   do Terceiro Mundo em favor de suas transnacionais. Por conta disso, deixou rios de sangue por onde passou.

Também há uma sentida ausência em seu livro. Trata-se do histórico discurso do ministro   de   Relações  Exteriores   da   Guatemala,   Guillermo   Torrielo   Garrido,   na   X Conferência Inter-Americana de Caracas – março de 1954, pouco antes do golpe –fazendo   uma   magistral   defesa   de   sua   revolução,  condenando   a   ingerência   do imperialismo estadunidense nos assuntos internos do país, anunciando os planos da invasão armada, desmascarando o pan-americanismo e conclamando a América Latina a juntar-se à causa de seu povo. Ao final, todas as delegações votaram favoravelmente aos Estados  Unidos  condenando   o   “comunismo   internacional   e   sua   ingerência   na Guatemala”,   com   exceção  do México   e   da   Argentina,   que   se   abstiveram,   e   da Guatemala, que logicamente se posicionou contrária.

Apesar de estar perdida a luta política, este discurso teve uma grande repercussão, pois até então nenhum governo latino-americano se atrevera a contradizer os delegados de Washington em uma reunião internacional, menos ainda a atacar  sua política  imperialista. Vargas Llosa jamais poderia esquecer deste discurso que, segundo algumas fontes, fora elaborado em parte pelo escritor guatemalteco Miguel Ángel Asturias, prêmio Nobel de literatura, em 1967.

Mario Vargas Llosa, um liberal na economia com fundamentos reacionários na política  – possivelmente  ressentido  pela perda  da presidência  peruana  para  o seu contrincante Alberto Fujimori, tanto que abandonou seu país – não se contém emTiempos Recios  (Alfaguara, Barcelona, 2019) e nas duas últimas páginas (350-351) solta todo o seu ranço contra o socialismo. Primeiramente afirma que o golpe vitorioso na   Guatemala   fortaleceu   os   partidos   marxistas,   trotskistas   e   fidelistas,   parecendo desconhecer o Manifesto escrito por Marx e Engels, em 1848; ato seguido, diz que o Movimento 26 de Julho, liderado por Fidel Castro, radicalizou-se e assumiu-se como comunista   devido   aos   acontecimentos   da  Guatemala,   mostrando   ignorância   nas conexões   já   existentes,   via   Raul   Castro,   com   o  comunismo   soviético.

Terceiro, parecendo delirar, escreve que Che Guevara que estava na cidade da Guatemala quando da invasão pela fronteira  de Honduras  dos  mercenários  de Castillo Armas, viu e aprendeu que uma verdadeira revolução precisa eliminar o Exército para consolidar-se, sendo o que vai acontecer, posteriormente, na Fortaleza La Cabaña, em Havana, quando muitos uniformados foram fuzilados. De maneira maldosa e desonesta, Vargas Llosa fazquestão de ignorar que os sentenciados à pena de morte passaram por julgamentos sumários e quase todos estavam envolvidos nos crimes de tortura e de assassinatos durante a ditadura de Fulgêncio Batista.

Em quarto lugar, solta a pérola da coroa, quando pronostica que se Washington tivesse permitido a modernização em Cuba, esta não se teria tornado comunista, não entendendo que toda “modernidade capitalista é bárbara”. Para tanto, bastaria ter perguntado aos indígenas mayas, quando de suas viagens pelo interior da Guatemala. E claro, como não poderia deixar de fazê-lo, VargasLlosa   caracteriza   Cuba  como   “uma   ditadura   anacrônica   e   cimentada   contra   todatentativa de liberdade”.

Por último, compara o golpe de Estado dado por Castilho Armas e os seus efeitos sobre o resto da América Latina, com as consequências da Revolução Cubana no continente. Para desfazer esta falsa afirmação, basta ver os índices de desenvolvimento humano destes dois países. Tanto impacto causou a Revolução Cubana que ela se tornou para as nações famintas um símbolo de liberdade nacional e de independência total. Para a América Latina, afirma o sociólogo estadunidense C. Wright Mills, ela é o que a francesa foi para a Europa, com todas as suas ambiguidades, como também com todas as suas promessas.Vargas Llosa parece pretender ser a voz dos impérios. Ele é um bom escritor, com péssimas ideias.