Venezuela: o crime do qual poucos falam

3 de Junho de 2019, por Elaine Tavares


É comum lermos nos jornais ou vermos na televisão que o governo da Venezuela está matando seu povo, visto que falta comida, remédios e segurança. Mas, de fato, se há mortes na Venezuela, e há, os culpados não são os agentes do governo. Desde 2015 que o país está vivendo uma série de ataques e sanções econômicas simplesmente porque o governo dos Estados Unidos não aceita a decisão das urnas, as quais tem mantido na presidência o bolivariano Nicolás Maduro.  Milhões de dólares pertencentes ao povo venezuelano, que estão em bancos fora do país, foram congelados. Não há como acessar os recursos e com isso não há como comprar comida ou remédios.

As acusações contra Maduro são as mesmas de sempre quando os Estados Unidos quer dobrar os joelhos de algum país: não é democrático, é autoritário, tem presos políticos etc...  Ou seja. Mentiras. E, ainda que não fossem mentiras, não justificaria um ataque dessa magnitude. Até porque países como Arábia Saudita e Israel, parceiros queridos dos EUA jamais poderiam ser chamados de democráticos, e ainda assim, não recebem qualquer censura dos estados Unidos. Pelo contrário. São apoiados e fortalecidos. 

Isso significa que não é a democracia ou a falta dela o problema. Então, se pensarmos um pouco, vamos ver que a questão da Venezuela está relacionada às riquezas imensas que ela tem e sua decisão de seguir um caminho soberano. Os Estados Unidos podem aceitar tudo, até um facínora como o príncipe saudita, ou assassinos, como os governantes de Israel. Mas, não aceitam de maneira alguma um país que queira caminhar com as própria pernas. Por isso insistem em estrangular economicamente a Venezuela, já que suas tentativas de golpe político não têm dado certo. 

A intenção do império é asfixiar a população venezuelana a tal ponto que as pessoas comecem a querer a queda do governo, para acabar com o sofrimento ao qual estão sendo submetidas. Esse tem sido o discurso dos opositores: derrubem Maduro e a comida volta. Derrubem Maduro e os medicamentos voltam. Na verdade, uma chantagem descarada com a população. 

O problema, para os EUA, é que a população venezuelana tem memória e sabe como foi a vida da maioria durante os governos passados, antes da Quinta República, e ninguém quer voltar àquilo. Por isso a resistência. A gente da Venezuela se espelha no povo cubano que desde há 60 aos vem resistindo ao bloqueio criminoso dos Estados Unidos.  A parte bolivariana da Venezuela sabe que entregar o país a velha oligarquia é voltar a tempos de muito terror e submissão. Com Chávez, desde 1998, a maioria da população tem sido protagonista da vida do país, atuando em uníssono e tomando decisões. Isso é inegociável.

Ainda assim, não tem sido fácil enfrentar o terror imposto pelos Estados Unidos. Sem dinheiro para comprar os produtos, o governo fica de mãos amarradas. E precisa contar com a solidariedade de pouquíssimos parceiros. Cuba é um deles. No quesito remédios, o governo da ilha tem sido bastante generoso, inclusive recebendo crianças que precisam de atendimento mais sistemático. Mas, claro que isso não é suficiente. O número de pessoas que precisa de medicamentos na Venezuela não pode ser atendido por ajudas pontuais. Bem como a fome não pode ser contida só com doações internacionais, que são poucas. Isso é um fator importante porque está em jogo a vida mesma. 

E enquanto a população vai vivendo seu calvário, imposto não por Maduro, mas pelos Estados Unidos, o mundo segue fazendo campanha pelo retorno da “democracia” ao país. Pessoas fazem novenas, apelam para os santos e distribuem notícias sobre a fome a as mortes como se tudo fosse um ato deliberado de um ditador. 

Ora, Nicolás Maduro não é um ditador. Na Venezuela, a burguesia comercial segue firme escondendo produtos, atuando sistematicamente na guerra econômica. Também a mídia comercial segue seu ataque diário contra maduro, contra Chávez, contra o bolivarianismo. Fosse diferente, fosse mesmo uma ditadura, estariam as TVs e os jornais atuando como atuam cotidianamente? Ou estaria livre a marionete dos EUA, Juan Guaidó? Basta apenas utilizar um dos neurônios. 

O que há na Venezuela é um governo que tem seus equívocos, seus erros, como qualquer outro, mas que pretende atuar dentro do seu país com soberania, ouvindo seu povo, revertendo prioridades para o uso do dinheiro do petróleo, seu bem maior. E esse é o seu maior pecado, manter o protagonismo das gentes e a independência política. 

Essa é a queda de braço. E os Estados Unidos não vão afrouxar. Seguirão roubando o dinheiro do povo venezuelano, impedindo o comércio com o país, incentivando os golpes, apoiando toda a sorte de maldades contra a população. Resta saber se os venezuelanos conseguirão resistir, como os cubanos resistiram ao crucial e terrível período especial. Não é fácil, visto que em momentos de profunda crise, como esse, uma boa parte das pessoas deixa assomar o egoísmo e aí corre solta a corrupção e a traição. De qualquer forma, há uma parcela bastante grande que apoia a proposta bolivariana e que pode superar o terror. Investir no desenvolvimento interno não é tarefa simples, principalmente se os ataques seguirem sem trégua. Mas, tudo pode acontecer. 

O mais importante é que o mundo saiba a verdade. A Venezuela está sob ataque, uma guerra diferente, mas com efeitos iguais a qualquer outra. Muita gente está morrendo nos hospitais, sem medicamentos, ou de fome, ou por conta da violência que se desata nas ruas. O ataque é orquestrado pelos Estados Unidos e pelos governos dos países ricos, como os europeus, que estão fazendo o jogo do império, segurando criminosamente o dinheiro do povo venezuelano. Um dinheiro legítimo, resultado da venda do petróleo, de uma riqueza que é da população. 

Esse é o crime. Essa é a verdade.