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Peixe de abril?

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Por IELA em 15 de janeiro de 2015

Peixe de abril?

Peixe de abril?
Por Raquel Moysés – jornalista

01.10.2013  – Por que será que ultimamente a mídia tem reservado tanto espaço para manifestações que em anos passados não mereciam nem segundos de horário nobre? Antes tão desprezados, os movimentos populares entraram de moda no “gosto” da mídia desde as manifestações de junho, que muito ainda nos devem fazer refletir.
Neste ano de 2013, apesar de não ter havido nada de gigantesco na participação popular em atos como os que marcaram o 7 de setembro, por exemplo, os meios de comunicação ofereceram espaço de sobra  para as manifestações. Mesmo quando elas eram visivelmente de poucas pessoas.
No entanto, nos dias em que o “Grito dos excluídos” vivia o seu auge, a imprensa comercial nem estava aí para esses protestos populares no dia da independência. Os meios de comunicação ignoravam as demandas do Grito e de outras tantas manifestações,  mostrando delas  apenas ‘flashes’ e em geral somente quando aconteciam “desordens” e incidentes com a polícia,
É visível que nos anos dos governos petistas o Grito dos Excluídos perdeu grande parte de sua vitalidade, principalmente quanto à participação de sindicatos e centrais sindicais, muitos deles lamentavelmente atrelados a governos. Todavia, o Grito tem uma história ininterrupta de 19 edições, culminando este ano com as manifestações que tiveram como lema “Juventude que ousa lutar, constrói o projeto popular”.
O Grito dos Excluídos foi construído a partir de 1993, tendo origem no trabalho da Pastoral Social da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), e como forma de aprofundar reflexões relacionadas à Campanha da Fraternidade. Por anos a fio reuniu trabalhadores e estudantes a marchar com  camisetas de campanhas pela vida digna. A cada ano, um tema: “A vida em primeiro lugar”; “Trabalho e terra para viver”; “Aqui é meu país”; “Brasil: um filho teu não foge à luta”; “Progresso e vida, pátria sem dívidas”; “Por amor a essa pátria Brasil”.
O Grito teve ainda o mérito de ter sido realizado, em alguns anos, em conjunto com plebiscitos populares como o da dívida externa, o da ALCA (Área de Livre Comércio das Américas) e o da anulação da privatização da companhia Vale do Rio Doce. Quem se lembra dela? Pois ninguém deveria esquecer a estatal milionária, patrimônio da nação, vendida, em 1997, por “dois tostões”, para a iniciativa privada, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, agora premiado com o galardão de membro da Academia Brasileira de Letras. É isso mesmo, FHC, também personagem principal do arrepiante livro  “O príncipe da privataria”, de Palmério Dória, uma grande reportagem de 400 páginas e 20 anos de apuração jornalística, publicado pela Geração Editorial.
Mas se até outro dia a mídia negava o protagonismo dos atores sociais e dava espaço generoso para temas e personagens equívocos, desde os acontecimentos de junho vem registrando com insistência as manifestações sociais.  Isso dá o que pensar, e nos remete para os dias em que vagalhões de pessoas saíram às ruas para protestar.
Indisposta naquele período junino, meus olhos se encheram de imagens transmitidas à exaustão pelas redes de televisão. De molho, no meu canto de mundo, procurava entender o que movia as pessoas. Em marcha, elas eram focalizadas por horas inimagináveis pelas câmeras televisivas, esses “olhos eletrônicos”, comandados por olhos bem humanos, que nada têm de inocentes ao enquadrar cenas de interesse público. Aliás, é muito frequente que sigam, sem discutir,  determinações ordenadas desde as redações jornalísticas como lei a cumprir, custe o que custar. Pois a “tese” dos donos dos meios tem que ser  comprovada a qualquer preço, mesmo negando evidências e distorcendo os fatos.
Febril, naqueles dias meus pensamentos eram atravessados pela dúvida enquanto procurava entender aquela outra febre que parecia convulsionar a multidão caminhante. Seria aquele estado de agitação nas ruas uma manifestação nascida genuinamente da sede de justiça do povo? Ou aquilo seria mais um “pesce d’aprile”?
“Peixe de abril” é como os italianos chamam notícias ‘vendidas’ como verdadeiras (só para criar embaraço entre as “vítimas” da brincadeira), no dia ‘primeiro de abril’. Obviamente que não se tratava de um trote do “dia da mentira” em pleno junho, pois a multidão nas ruas e estradas era completamente real. Só que, diante das exaustivas imagens televisivas, dava para  desconfiar dos oráculos que poderiam estar definindo o significado daquelas imagens que iam ao ar.
Que interesses emanariam das bandeiras levantadas por grupos tão distintos, a desfilar de norte a sul em terras de Brasis? Repórteres e analistas diziam, a boca cheia, que a maioria da multidão era formada por grupos apolíticos e apartidários. E eu me perguntava: Quem neste mundo é apartidário ou apolítico? Pois se nem mesmo na própria casa ninguém é apartidário ou apolítico! Todas as nossas relações mais íntimas e familiares não são sempre mediadas por definição de posição e tomadas de partido? Agimos politicamente em nossas casas o tempo todo, assim como fazemos política em qualquer outro espaço do viver, e isso ninguém pode negar, sob pena de declarar o falso.
Diante dos cortejos coloridos e ruidosos que desaguavam de todos os cantos do país, me vieram à memória os olhos do meu amigo José de Assis Filho. Fiquei imaginando como seu rosto teria se iluminado de genuína alegria se pudesse ter visto a multidão transbordante de energia.  Estaria certamente repleto  daquela mesma luz que se via no seu olhar quando ele, com um pano de prato dependurado no ombro,  observava,   debruçado no balcão da cozinha, as pessoas se nutrirem dos alimentos que ele preparava em dias de festa.
A última vez que caminhamos juntos foi em uma passeata que fechou a ponte de Desterro, lá por 2007. Sua vida terrena também se fecharia dali a pouco, mas nenhum de nós suspeitaria disso ao ver a enorme vontade  que fluía de seu espírito,  repleto de desejos de mudança para sua brava gente brasileira.    
E é exatamente por ter me lembrado tanto de Assis naqueles dias de junho, e nesses meses que se seguem às manifestações, que, mesmo assaltada por dúvidas, não me atrevo a pensar que a maioria daquela multidão fosse somente massa de manobra comandada por interesses oportunistas travestidos de aura revolucionária.  
Havia, (e há), evidentemente, também disso nas passeatas. Oportunistas e golpistas poderiam estar ali, carregando faixas e bandeiras confeccionadas de propósito por bandos com interesses politiqueiros e até criminosos. Grupos perigosos, disfarçados na  oficialidade,  poderiam até mesmo ter pagado e armado a mão dos violentos, que a mídia insistia em classificar de “baderneiros” e “desordeiros” sem causa.
No entanto, no episódio das manifestações,  não deveriam causar receio as bandeiras de grupos que se expressaram  livremente através de  faixas confeccionadas em gráficas ou  de cartazes caseiros escritos e pintados à mão. O que certamente deveria preocupar, e muito, é o que se esconde atrás de bandeiras e atos que ocultam os seus verdadeiros autores.
Ninguém pode contestar a legitimidade das manifestações do Movimento Passe livre, das várias organizações de todas as cores políticas, dos grupamentos de jovens, dos sindicatos, das centrais de trabalhadores, dos partidos políticos. São legítimas as entidades que se mostram claramente, expondo suas ideias e assinando seus cartazes, bandeiras, camisetas.
Isso me faz lembrar a frase que ouvi de meu filho, um dia antigo, em que me preparava para sair às ruas para mais  uma manifestação pública de luta pela vida.  Ele me disse: – Lá vai minha mãe, com suas bandeiras estampadas no peito!
É isso mesmo. Nenhuma suspeita deveria provocar quem expõe no peito suas bandeiras.  Pois é a honestidade de se expor à luz que legitima quem sai às ruas para protestar ou festejar.  Se eu me declaro individualmente ou levo nas minhas bandeiras a assinatura dos movimentos coletivos de que participo, isso significa que não oculto interesses nem tenho nada a esconder.
E mesmo quando as bandeiras que se levantam afrontam direitos humanos ou pregam malefícios, há como se defender do que elas expressam, há como se preparar para enfrentar o mal que testemunham. Pois estão expostas aos olhos de todos. O risco reside na ocultação do mal, nas posições obscuras. O perigo está naquilo que dissimula a centelha da violência, disfarça o ranger das correntes, encobre o terror da tortura, abafa os gemidos nos calabouços.
O perigo não está em caminhar com os que pensam diferentemente de nós, e deixam clara esta diferença. Quem participa sem dissimulação de um protesto popular de modo totalmente espontâneo, até mesmo quando critica as bandeiras expostas, não deve ser confundido com quem se esconde nos subterrâneos da velha política ardilosa de se declarar apartidário, apolítico e sem ideologia.
Quem se manifesta, ainda que contra um desejo de mudança, um dia pode mudar. Foi assim com Assis, que faz parte da história da Universidade Federal de Santa Catarina. Ele vinha do pertencimento ao grupo político conservador, que por anos esteve à frente dos destinos da universidade catarinense. Mas houve um dia em que se dispôs a ouvir pontos de vista, aceitou dialogar com seus declarados adversários e mudou de posição e de lado.
Mas Assis mudou mesmo, por dentro e não só nas palavras. Tornou-se um dos mais sinceros militantes que a universidade e todo o serviço público já tiveram. Só que ao mudar, ele não saiu pisando nos seus aliados de ontem.  Passou a expor apaixonadamente as suas novas bandeiras, mas se revelou capaz de manter relações humanas com os novos adversários políticos, seus antigos parceiros. O seu desejo era de que, um dia, talvez, eles  pudessem entender as urgências de um  mundo em desgraça e passar para o lado dos oprimidos, dos que lutam por justiça,  igualdade,  liberdade.
Assis passou a caminhar em outra direção, mas não queria seguir sozinho ou apenas com os novos “seus”. Desejava ver mais gente se  transformar por dentro.  Mas enquanto isso não acontecia,  não se negava a dialogar com seus antigos pares, mantinha relações fraternas com eles. O que não o impedia de ser duro e levantar a voz quando manipulavam a direção das lutas, destroçando propostas libertadoras e incentivando o “voto caixão”, de quem decidia sem conhecer o “morto”, sem nem saber as razões de  levantar o dedo nas assembleias ou votar nas eleições.  Atitudes que perduram na nossa triste política, inclusive a universitária.
Ontem como hoje existem muitos interesses em jogo. A distância de meses para as eleições presidenciais há disputas eleitorais tramadas por todos os lados. E a propaganda eleitoreira dos partidos não deixa dúvidas. Enoja assistir à propaganda de partidos que preferem apelar à baixaria e ao “elogio do medo”,  para desqualificar pessoas públicas e governos,  do que fazer o livre debate sobre  desmandos e erros, apresentando argumentos  e propostas concretas e factíveis.
Nos primeiros dias das manifestações de junho, uma propaganda deplorável era veiculada exaustivamente em horário nobre. Nela, os marqueteiros, a mando dos políticos a que servem, tripudiavam subliminarmente com a imagem do ex-presidente Lula, apresentado numa foto ao lado de Dilma.  No fim da propaganda, o retrato de ambos aparecia timbrado com um carimbo que estampava a palavra “incompetência” sobre suas figuras.  Só que as letrinhas do carimbo foram programadas para cair de tal modo sobre os dentes do presidente operário, que a sua  boca,  em sorriso aberto, parecia a de um desdentado.
Propagandas como esta e reações que vieram de todos os partidos, após as manifestações, obviamente não têm nada inocentes. O que existe de candidato bom mocinho vendendo seu partido e seus governos como o melhor dos mundos! É tanto político querendo mostrar que inventou a roda,  que chega a nausear. Muitos deles agem como se fôssemos uma nação de idiotas. Só balela e falsidade!
Infelizmente, a nação brasileira vive refém de uma classe política que em grande parte não merece apreço nem demonstra estar à altura de seu mandato. Do mesmo modo, a maioria da  população segue refém de uma mídia matreira,  que finge não ter partido nem ideologia para desfigurar a face da realidade.
Há clareiras de bom senso no meio de tudo isso, mas em geral o poder de alcance dos que atuam nas brechas de dignidade informativa são muito restritos, apesar do efeito inegável das redes sociais. E preciso estar, porém,  muito atentos ao que  disseminam, e porque o  fazem. Muito do que rola pelas redes tem origem em interesses sorrateiros e pode ser apenas ouro de tolo. Promessas de falsos alquimistas, ou pior.  

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