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Ser um canalha é bom

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Por Rafael Cuevas Molina - Presidente AUNA-Costa Rica em 29 de junho de 2026

Ser um canalha é bom

Presidente eleito da Colômbia  – De La Espriella

Vivemos um período de declínio ético e moral, que deve estar associado à entronização de um “senso comum” neoliberal onde prevalecem o consumismo, o individualismo e a mentalidade de “salve-se quem puder”.

Mauro Entrialgo cunhou o termo *malismo* (uma celebração do mau comportamento) para caracterizar uma tendência contemporânea que marca a nossa cultura. Ele o descreve como a exibição pública de ações ou desejos tradicionalmente condenáveis, com o objetivo de obter vantagem social, eleitoral ou comercial.

Donald Trump — possivelmente a personificação do *malismo* contemporâneo — comentou cinicamente em um comício de 2016, em Iowa: “Eu poderia atirar em pessoas na Quinta Avenida e não perderia nenhum voto”. Ele foi aplaudido e ovacionado com fervor. Para piorar a situação, é possível que essa declaração tenha, na verdade, impulsionado sua popularidade em vez de lhe render condenação.

Entrialgo afirma ter tomado plena consciência desse fenômeno em 11 de julho de 2012, quando Andrea Fabra — deputada do Partido Popular (PP), de direita, na Espanha — gritou “Que se danem!” a plenos pulmões de sua cadeira no Congresso. Ela fez isso enquanto o então primeiro-ministro, Mariano Rajoy, anunciava cortes nos benefícios de desemprego e — de forma mais ampla — o maior corte orçamentário da história recente da Espanha.

O que se seguiu foi ainda pior. Uma manchete do jornal digital espanhol *elPlural*, de 30 de novembro de 2012, relatou que deputados do PP “deram risada” e recompensaram Andrea Fabra por seu comentário “sagaz” — o “Que se danem!” — entregando-lhe o prêmio “Emilio Castelar” durante o jantar de Natal do partido.

A ascensão da direita na política latino-americana contemporânea nos oferece muitos exemplos de *malismo*: Javier Milei na Argentina, José Antonio Kast no Chile, o colombiano Abelardo de la Espriella… O ex-presidente da Costa Rica, Rodrigo Chaves, e a atual presidente — que se descreve como alguém que dá continuidade ao legado dele —, Laura Fernández, bem como o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro, têm sido caracterizados por um estilo “trumpista”. Isso envolve disparar insultos e ofensas a torto e a direito contra qualquer um considerado inimigo político, pois — como o próprio Entrialgo observa — mentir e insultar conquista votos, tal como faz Donald Trump ao chamar jornalistas de “porcos” ou “estúpidos”.

Não se trata apenas deles, mas de toda uma massa inflamada de pessoas que imitam e emulam cegamente seus líderes, especialmente nas redes sociais. Surgiu nesse ambiente uma legião de influenciadores dedicados a amplificar e renovar essa retórica hostil, utilizando táticas que vão desde a distorção de informações até a criação de boatos.

Nos Estados Unidos, o exemplo mais claro é o do influenciador Charlie Kirk, que foi assassinado no ano passado no campus da Utah Valley University. Ao longo de sua carreira, Kirk ficou conhecido por fazer declarações inflamatórias — e frequentemente racistas e sexistas — para grandes plateias, dedicando-se a defender e articular uma visão de mundo alinhada a Trump e ao movimento MAGA. Kirk fazia publicamente afirmações como: se visse um piloto negro, questionaria se a pessoa era realmente qualificada; ou que os Estados Unidos atingiram seu auge quando suspenderam a imigração por 40 anos e reduziram a população nascida no exterior ao seu nível mais baixo na história — e que não deveria haver receio de fazer o mesmo agora.

Essa adesão à maldade também se manifesta como uma demonstração de vulgaridade e mau gosto. Mais uma vez, Donald Trump é o exemplo perfeito que encarna esse paradigma. Suas ações na Casa Branca servem como uma ilustração primordial: a reforma do Salão Oval — repleta de todo tipo de decoração dourada e troféus — é uma demonstração de estética de *nouveau riche* (novo-rico); a colocação de seu retrato na galeria de ex-presidentes (embora maior do que todos os outros); e, mais recentemente, a celebração extravagante de seu octogésimo aniversário nos jardins da Casa Branca, com uma luta de *wrestling* em um ringue gigante cercado por artistas americanos, socialites e — inevitavelmente — os homens mais ricos do mundo, proprietários de grandes corporações internacionais, como Elon Musk e Mark Zuckerberg.

Tais rompantes não nos são estranhos na América Latina. Basta lembrar de Javier Milei realizando shows de rock e disparando insultos gratuitos contra seus rivais políticos, ou do ex-presidente da Costa Rica chamando o presidente da Suprema Corte de Justiça de seu país de “estúpido”. Esses são apenas exemplos aleatórios dessa tendência na direita política contemporânea. Vivemos um período de declínio ético e moral, ligado à ascensão de uma mentalidade neoliberal onde prevalecem o consumismo, o individualismo e a mentalidade de “cada um por si”. Isso se manifesta não apenas na “maldade” que discutimos aqui, mas também em muitos outros aspectos da cultura contemporânea que deixam muitos de nós perplexos e desorientados — como quando uma banana colada com fita adesiva em uma parede é apresentada como obra de arte. O antídoto é cultivar o pensamento crítico — uma habilidade que se torna cada vez mais escassa devido ao declínio dos padrões educacionais e ao entorpecimento mental causado pelas redes sociais que acessamos nos celulares aos quais todos nós permanecemos grudados o dia todo.

Será que estamos condenados a nos tornar sociedades totalmente alienadas?

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