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Argentina: Desbordar a muralha do silêncio

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Por Aline Goldberg - Doutora em Letras em 29 de janeiro de 2026

Argentina: Desbordar a muralha do silêncio

André Queiroz, escritor e cineasta

Entrevista de Aline Goldberg com o escritor André Queiroz

(conversação sobre QUANDO NUNCA É TÃO AGORA e MATAR O PAI)

A proposta da conversação era tomar ‘rédeas curtas’ tanto o livro MATAR O PAI, lançado recentemente pela Editora Insular, quanto o texto teatral QUANDO NUNCA É TÃO AGORA, em fase inicial de ensaios e composição de elenco – é que, em ambos, o que está em cena é a investigação acerca dos desobedientes argentinos. Tratemos de avançar na forma de uma conversação.

Como te surgiu o tema, e mais, do que se trata quando se nomeia ‘os desobedientes’ na Argentina?

O termo ‘desobedientes’ me soou extemporâneo quando eu ouvira essa palavra da boca de Nora Patrich, artista plástica, ex militante de Montoneros, companheira de Roberto Baschetti; ela disse que era algo novo, que ‘os desobedientes’ eram filhos e filhas de genocidas repressores da última das ditaduras militares argentinas que resolveram romper com as suas famílias, assumindo a tarefa de denunciar publicamente, em juízo, os crimes de lesa-humanidade cometidos por seus pais.

– Como assim, explica melhor, eram tipos que foram sequestrados e que ficaram sabendo que seus pais verdadeiros estavam desaparecidos?

Não eram filhos de desaparecidos, e por conseguinte, filhos ilegítimos, não é o caso, os desobedientes são filhos e filhas biológicas de genocidas. Pode parecer inusitado, já escutei tal associação inapropriada, algumas vezes, aqui no Brasil; é uma dúvida recorrente – o que indica o quanto tal experiência se mostra incongruente entre nós. As pessoas tendem a associar a denúncia dos desobedientes, ou melhor, o seu reclamo, o seu acionar, ou ainda, a conformação deste novo sujeito político, praticamente inaudito entre nós, aos casos dos bebês nascidos em cativeiro, nas maternidades clandestinas, como as que havia na Escuela Mecánica de la Armada ou em Campo de Mayo, mas não é o caso. Os desobedientes são filhos legítimos de famílias de torturadores do aparato político-militar do Estado argentino.

O caso dos desobedientes ainda é recente na própria Argentina – e como tudo aquilo que é novíssimo, e como todo fato que não está inscrito em um lastro já consolidado de outras ocorrências, traz consigo algo de suspeito. Os desobedientes ocuparam por um tempo certa ‘ausência de lugar’, um limbo de incomunicabilidade, uma zona não rastreada por qualquer caldo de cultura já conformado, como é o caso das lutas e consignas dos Nietos, estes sim, filhos e filhas de desaparecidos políticos que foram entregues às chamadas famílias apropriadoras durante o terrorismo de Estado argentino – que sequestrou, que manteve sob cárcere clandestino, que torturou, que fez desaparecer a cerca de 30 mil pessoas de forma sistemática e planificada; terrorismo de Estado este que promoveu o que poderíamos chamar de botim de guerra, ou seja, mais de quinhentas crianças foram sequestradas e entregues à famílias apropriadoras que mantinham algum vínculo, direto ou indireto, com o regime político de exceção.

E se digo que tal tema, o das crianças sequestradas, faz parte de certo caldo de cultura comum aos argentinos médios é por conta do trabalho incansável de organizações tais como Las abuelas de la Plaza de Mayo, ou Las madres, ou Los Hijos, ou ainda e mais propriamente, Los Nietos, tal como havia mencionado acima.

– Mas não se trata disso quando se está falando dos desobedientes, não é verdade?

Exatamente, não se trata disso. Se trata da emergência de outras vozes, de outros personagens que começaram a se organizar politicamente ainda há pouco, mais precisamente durante o governo de Maurício Macri, no ano de 2017, e por conta de um decreto de rebatimento jurídico-penal chamado 2 por 1 que tendia a redução das penas de militares e de agentes de bandas de extermínio que haviam sido condenados por serem partícipes do genocídio argentino.

Ou seja, o cenário da emergência dos desobedientes como sujeito político é o do aprofundamento do capitalismo financeiro, privatista, repressor, neoliberal, que buscava promover uma releitura dos crimes de lesa humanidade ocorridos durante a ditadura empresarial-militar, ressignificando a imagem pública e social de agentes do aparato de repressão do Estado por meio de decreto presidencial que passava inteiramente à margem de qualquer debate público com a sociedade argentina. Claro está, sabemos, que os ajustes fiscais e o abandono de toda e qualquer política social por transferência direta de recursos do orçamento público para os grandes consórcios financeiros implica necessariamente em investimentos massivos em uma legislação de repressão e no fortalecimento de seu corpo de repressão. É o que hoje se está vivendo desde o primeiro dia do governo de Javier Milei e Victoria Villarruel.

Mas voltemos ao nosso tema. Os desobedientes são filhas e filhos biológicos (há também outros graus de parentesco), nascidos no seio da família militar, que cresceram desde a mais tenra infância naquele círculo íntimo de convivência, sob a redoma de hábitos, valores, costumes, e que foram como que plasmados por uma certa forma de compreensão do processo histórico-político que lhes tocava viver; gente que escutou desde cedo – estamos nos referindo à segunda metade da década de 70 até a primeira metade da década seguinte – as consignas torpes disparadas pela máquina de propaganda publicitária da ditadura, de que se tratava de fazer a limpeza do país de tipos que eram inimigos da Argentina, de tipos que promoviam a desordem, o caos social, e que eram responsáveis pelo aliciamento de jovens, e etc e etc. Mas não apenas isto, gente que escutava e via tudo isto no recuo de seu próprio lar, no espaço nucleado de sua família.

E como eles descobrem isso de seus pais estarem envolvidos nestes crimes pavorosos? Li no seu livro MATAR O PAI, publicado recentemente pela Editora Insular, que alguns destes personagens hediondos injetavam anestésicos em gente que ia ser atirada com vida dos voos da morte; é este o nome que era dado a estes voos macabros, confere?

Os relatos que colhi em entrevistas são distintos entre si. Entrevistei a três pessoas: Bibiana Reibaldi, Erika Lederer, Pablo Verna. Os pais de Pablo e Erika, eram médicos, digo ‘eram’ mas em verdade o pai de Pablo ainda está vivo e não foi sequer imputado, mas voltemos, seus pais participavam dos voos da morte a que você se refere, mas eles não estavam envolvidos apenas a estas tarefas; o pai de Erika era médico obstetra, oficial de comando, e atuava na maternidade clandestina de Campo de Mayo, a principal repartição militar da Argentina, onde foram desaparecidos mais de 5 mil pessoas. Ele esteve envolvido em partos de bebês que foram sequestrados logo quando do nascimento. Pablo Verna, por exemplo, conta que seu pai gostava de ir junto nas rondas de sequestro acionadas pelos Grupos de Tarefas.

Já o pai de Bibiana era oficial de Inteligência e trabalhava no famigerado Batalhão 601, principal centro coordenador do aparato de informação do Estado ditatorial, vinculado diretamente ao Alto Comando Militar, e que alimentava todo o dispositivo de repressão. Mas não apenas aí trabalhava o pai de Bibiana. Ou melhor dizendo, ‘o raio de recobrimento de suas ações’ não estava restrito ao território nacional argentino. Bibiana conta que, durante sua infância e adolescência, seu pai viajava várias vezes por ano, e sempre lhe trazia lembranças de cada um dos lugares visitados. O ela não sabia é que tais viagens faziam parte das missões executadas no âmbito da Operação Condor – de livre associação, permuta, colaboração entre os repressores militares e civis das inúmeras ditaduras de segurança nacional espalhadas pela América Latina. Eram viagens de perseguição, localização, traslado de militantes políticos argentinos que haviam conseguido transpor as fronteiras e que eram localizados em outros países.

– Mas como os desobedientes ficaram sabendo de tudo isso? E o que isso provocou neles? Pergunto isso porque tento me colocar no lugar destes filhos e filhas, e me parece que é terrível isso, como alguém consegue viver com esse fardo, esse espólio maldito…

Aos poucos, de diferentes modos, através de relatos fragmentários que foram lhes chegando seja por meio de depoimentos em juízo (quando imputados os seus pais), seja porque foram interpelados pelos filhos (num crescendo) com o passar dos anos.

Importante destacar que com o final da ditadura, com o chamado processo de redemocratização, com o avanço das vozes e demandas públicas das Abuelas e das Madres, com o juízo das juntas militares, com o trabalho coordenado da Equipe de Antropólogos Forenses na busca de restos mortais de desaparecidos em fossas comuns em cemitérios clandestinos, enfim, pela chamada nos meios de comunicação para a organização de um banco de dados genéticos, pelo testemunho dos sobreviventes destes centros clandestinos de tortura, assim como pelos programas governamentais implementados durante o governo de Néstor Kirchner no que tange às políticas de Memória, Verdade e Justiça.

Tanto nos depoimentos que colhi, quanto nos testemunhos de outros desobedientes a que tive acesso, eles contam de etapas que se vai vivendo – a recusa, a descrença, a vergonha, a tristeza profunda, a raiva, o rechaço. Bibiana conta que seu pai era o principal esteio subjetivo de sua vida, e para ela tudo lhe custou muitíssimo, foram anos de depressão, sem conseguir trabalhar. Seu irmão, por exemplo, que sempre se recusou a lidar com o fato, levou sua vida como um adicto, despedaçado. Já Erika descreve que seu pai sempre foi um tipo violento, ela o qualifica como sendo um tipo de humores bipolares, oscilando entre o gesto de carinho e o ato bruto da violência física. Pablo Verna, que hoje é advogado ligado a equipe de Pablo Llonto na qualificação e representação das vítimas de crimes de lesa-humanidade, conta que seu pai chegou a ameaçar a ele e sua família, incluindo sua filha pequena, à medida em que as denúncias de Pablo foram ganhando visibilidade pública. Atentemos a isto – o pai de Pablo, genocida, ameaçou de morte a sua própria neta. Signo sintoma do quão estão ativos os circuitos de ilegalismos e de crimes atrelados a ações de bandas de sicários e matões a soldo.

Fico imaginando que a família se despedaça toda…

Sim, claro, a família, o círculo de amizades, há um rompimento, uma fratura sem volta, um despedaçar das coisas. E há um corpo que cai neste fosso, há um corpo que está à deriva, que começa por naufragar, que experimenta a solidão represada por uma muralha de silêncio. No entanto, além deste elemento primeiro, desta dor particular e privada, há a ação segunda, posterior, que é a de se organizar politicamente, de perceber que para além daquilo que se vive de forma individual, com seu traço próprio e peculiar, existe algo que lhes é comum, algo de uma experiência íntima que não é apenas do indivíduo que a vivencia, e que quando compartilhada com gente que viveu, e vive algo bastante semelhante… enfim, o que se vai construindo são  redes de proteção, de sustentação, espécie de teia de acolhimento, teia esta tangida por laços de solidariedade e escuta onde a palavra atinge sua dimensão litúrgica e política.

Como é que você estruturou isto no seu livro? Pergunto isso porque notei que há uma mescla de estilo narrativo…

É verdade, mesclei a forma narrativa. Tenho chamado de ensaios-reportagens. É que, por um lado, quis manter o tom testemunhal colhido nas entrevistas que realizei em Buenos Aires. Ou seja, garantir a força da palavra em primeira pessoa, do relato que narra o que se viveu desde o foro íntimo. No entanto, Matar o pai não é um livro de entrevistas. Agreguei material que colhi e que é resultado de investigações que tenho desenvolvido há pelo menos uma década acerca da história política e cultural da Argentina do final da primeira metade do século passado até os dias de hoje.

Acrescentaria ainda dois pontos no que tange ao livro. O primeiro diz respeito a vice-presidente Victoria Villarruel. Ela é ‘uma das personagens’ que atravessa os três capítulos do livro. É que Villarruel é o protótipo do filho obediente, que reivindica o legado de seu pai militar, de sua família militar. Contraponto claro com relação aos esforços dos desobedientes. Mas não apenas isto. Victoria Villarruel é advogada, presidente do Centro de Estudios Legales sobre el Terrorismo y sus Víctimas (CELTYV), espécie de organização não governamental fundada no ano de 2006. Ela é a principal representante de um segmento social que a cada vez tem se hegemonizado, segmento este que busca recolocar os militares na cena política argentina. Victoria Villarruel é imensamente habilidosa, ela faz uso das ferramentas conceituais utilizadas pelas principais organizações de Direitos Humanos, revertendo os sentidos destas narrativas. Em termos muito gerais, ela pleiteia o que chama de Memória Completa, ou seja, nos seus termos, a desideologização e o aparelhamento das políticas de Memória, Verdade e Justiça levadas a cabo pelos governos kirchneristas. Se trataria então de avançar nos trabalhos de reconstituir o que se tinha vivido nos anos imediatamente anteriores do Golpe Militar de março de 1976, assim como durante o autodenominado Processo de Reorganização Nacional. Em poucas palavras, Victoria Villarruel exige a reabertura dos processos judiciais contra àqueles militantes que formavam os quadros de Organizações Político Militares como Montoneros e El ERP (Exército Revolucionário do Povo) sob o pretexto de que foram inúmeros os crimes cometidos por estas organizações que ela nomeia sob a pecha de organizações terroristas. Claro está que o que se está plasmando é o apagamento do processo histórico no que se parte dos pressupostos argumentativos de uma tipa como essa.

– No livro, você conta que estes revisionistas chegam a negar a cifra de 30 mil desaparecidos…

Sim, eles negam, dizem que foram cerca de nove mil os desaparecidos, se referindo aos números a que se chegou quando das investigações da CONADEP (Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas) em seu relatório Nunca Más, ainda durante o governo de Raúl Alfonsin. Se trata de ações tergiversadoras que, em última instância, buscam por aproximações estratégicas sucessivas, ir ganhando terreno, semeando discórdias, dúvidas, infiltrando-se sub-repticiamente em crescentes setores da população argentina que já não se mostra interessada neste debate – uma vez que tais setores estão inteiramente submersos nos efeitos aterradores das políticas econômicas dos distintos governos desde o processo de redemocratização. Setores sociais que vivenciam a fome, a condição de desemprego estrutural, a repressão dos agentes de segurança pública, a falta de saneamento básico nas Villas Misérias (as favelas) e nas zonas periféricas.

Lembro-me de quando estava nos trabalhos de investigação que resultaram no longa-metragem El Pueblo que Falta (que roteirizei, produzi e codirigi). Era o ano de 2014. Estava-se em pleno governo de Cristina Kirchner. Havíamos entrevistado as gentes da CORREPI (Cordinadora contra la represión policial institucional) que nos relatavam os números aberrantes de execuções de jovens e adolescentes por Gatillo Fácil, nas periferias de Buenos Aires, por incursões planificadas de agentes policiais sob o pretexto de tráfico de drogas e formação de quadrilhas criminais. Mais tarde, pude conhecer a algumas das mães e familiares destes jovens executados, elas haviam se organizado politicamente. Eram Las Madres de Los Gatillos Fáciles. Eram e são a expressão viva, concreta e material de que a violência e o terror impetrado pelo Estado e por seus governos de turno atendem aos interesses de classe e ao saqueio da riqueza comum do povo – seja durante regimes de exceção, seja durante a chamada democracia liberal burguesa -, o que acaba por ceifar os sonhos e projetos de vida de los de abajo, condenados que estão à miséria social, cultural, econômica, política e subjetiva.

Vamos do livro ao texto teatral QUANDO NUNCA É TÃO AGORA. O que te levou a esta guinada na direção do teatro – é que você acabou de lançar o livro MATAR O PAI e surge esse seu texto recolocando em pauta o tema dos desobedientes.

Desde os primeiros contatos com os desobedientes, na Argentina, havia pensado em fazer algo com tudo aquilo que não se bastasse à forma-livro. Comecei publicando os ensaios em alguns portais. Noutros termos, a intenção era a de fazer chegar esses relatos a leitores que dificilmente teriam acesso ao livro quando ele fosse publicado. Ou seja, compartilhar com mais e mais gentes o que pude testemunhar nos encontros que tive com os desobedientes. E então, depois, no final do ano passado, o livro ficou pronto, e neste caso, se tratava de evitar a dispersão fragmentada dos ensaios aos portais, resolvi reuni-los em MATAR O PAI.

No que tange à referida guinada, confesso que a gira do percurso estava prevista desde antes – me refiro a buscar contar esta história sob outra forma narrativa. Havia experimentado certa inflexão literária, em prosa poética, em uma parte do ensaio sobre o caso de Erika Lederer. São palavras-imagens que transbordam o pesadelo recorrente que me contara Erika, somado a outros elementos ficcionais que fui dispondo no processo de escrita; lembro-me de uma ou duas fotografias da infância de Erika – nas duas fotos, ela estava com seu pai, e numa destas sobre as suas costas como se tivesse trotando em um animal de quatro patas; e então no processo de escrever este ensaio eu ‘decupava’ as fotografias, criando uma voz narrativa, em prosa poética; voz sôfrega, aviltada, sufocada pela asma (que Erika revelou lhe ter surgido na infância – e eu traduzi o que escutei pensando: a asma como a casa da palavra sustada) e pela impossibilidade de completar as palavras, de formular uma frase inteira, sintoma do intolerável a que ela estava submetida, no entanto e ainda assim, essa voz narrativa se fazia intensa e potente, ou em síntese, se fazia urgente, necessária, definitiva. Neste trecho do ensaio, imprimi um ritmo que pouco dialogava com outras partes deste mesmo texto, o que era intencional, claro.

Conversava bastante com Erika sobre isto. Escrevia algo, a consultava, pedia algumas pistas aleatórias – as músicas que ela escutava, seus esportes praticados, um trecho de livro lido, Erika me enviou três de seus poemas inéditos. Lembro que tão logo ela leu esse trecho que mencionei ter escrito, me disse que já via teatro naquilo, e que tinha gostado muito, que tinha tocado forte nela, que as palavras-imagens a desestabilizaram bastante, que em alguns instantes o fôlego lhe faltava, era a asma? Era o corpo intenso expressivo, superfície de inscrição de afetos rebatendo tudo. Todavia, nesse instante, tudo era ainda incipiente com relação a construção do texto teatral. Não tinha alcançado o prumo certo, ainda ainda, tampouco o enredo estava claro ou nítido em minha cabeça, todo modo, sabia que iria levar ao teatro o caso dos desobedientes. Inclusive, havia reservado uma caderneta azul, pequena, com elástico atravessando capa e quarta capa, levava comigo para todo canto essa caderneta; nela eu ia anotando alguns elementos que me iam surgindo. E uma coisa bem interessante de evocar é que a cena que abre e que fecha o texto, e consequentemente a peça, foi a primeira coisa que escrevi de QUANDO NUNCA É TÃO AGORA.

– Quais foram as primeiras imagens que lhe surgiram?

Além do tema, e desta primeira cena, claro, eu vislumbrava personagens. Mas grande parte disso ‘caiu por terra’ no processo da escrita de QUANDO NUNCA É TÃO AGORA. Essa cena que menciono não, essa cena se manteve, mas fui esgarçando-a, incorporando outros elementos, enriquecendo de detalhes e de marcações das ações físicas que seriam executadas pelos atores, as partituras de movimentos, a coreografia dos gestos, tudo ainda sem palavras, sem texto, mas do traçado inicial desta primeira cena – cena que se desdobra, repetindo-se como na última cena do texto, muita coisa permaneceu. Fora à parte isto, nada ficou, tudo foi caindo, tudo foi sendo abandonado.

É que, a princípio, estive muito preso ao que me haviam relatado os desobedientes que entrevistei. Pela força e gravidade de tudo aquilo que eu havia escutado, anotado, e que agora ia compondo, fazendo arranjos, escrevendo – porque, tal como afirmava Rodolfo Walsh, escrever é escutar, sobretudo escrever é isso, escutar, decupar sinais e sentidos do que se escutou, mas mantendo as orelhas bem abertas, suspendendo os juízos predicantes, evitando superposições decalcadas de um conjunto prévio de ideias, e atentando com a maior acuidade que nos é possível para os sinais que nos chegam do real-social, de sua dimensão concreta que nos abarca/açambarca/invagina/convulsiona, mas que nos interpela a agirmos, na forma como podemos intervir. No caso de uma obra teatral ficcional como a que me propunha a escrever, tal forma de interpelação me levava ao ato de criar um enredo no que os personagens estão descolados de qualquer dimensão biográfica particular e pessoal.

Queria colaborar na reverberação daquilo tudo que ouvira aqui no Brasil – debate este do qual estamos inteiramente alienados, senão indiferente; contribuir de alguma forma para que se tomasse ciência de que haviam àqueles que tinham vivido tamanho trauma de uma perspectiva distinta, de um lugar outro do que se tinha acesso até então – afinal eles não eram filhos e filhas de sequestrados, mortos, desaparecidos, mas filhos e filhas biológicos dos perpetradores de tais crimes hediondos, ou seja, queria chamar atenção para os desobedientes como sendo estas novas vozes, este novo sujeito político que estava se somando, dia após dia, que se multiplicava aqui e ali, em diversas regiões da Argentina e de Nossa América; gente que se juntava ao cenário das lutas em torno da Memória, Verdade e Justiça; ou seja, que havia filhos e filhas de genocidas envolvidos em crimes de lesa humanidade que atravessaram o ‘conforto’ de suas ilhotas de silêncio e alienação, que ousaram rasgar os limites tracejados de seu círculo íntimo, que enfrentaram o horror da ruptura com seu núcleo familiar primeiro, e que por isso, exatamente por isso, foram alvo de todo tipo de acusações, abusos e perseguições, ameaças e desconfiança, mas que importa isto?! Eles seguiam colocando seu corpo em risco, eles se lançaram ao rechaço do legado que lhes cabia, assumindo a denúncia pública dos crimes cometidos por seus pais biológicos, conformando-se, desta forma, tal como afirmei acima, como novos sujeitos políticos irmanados ao campo popular.

Dito isso, no caso de meu texto teatral, não queria costurar um enredo que tivesse ares de documento histórico particular e pessoal. Não queria estar preso a este ou aquele caso referido a este ou àquele desobediente, não queria ter que prestar contas ipsis litteris com os personagens sociais que me haviam confiado os seus relatos tão íntimos e dolorosos. Cheguei a conversar sobre isso com Erika algumas vezes.

Em março de 2025, aluguei uma casa em Figueira, distrito de Arraial do Cabo, queria começar a escrever a peça, me isolei por cerca de quinze dias, mas nada, a peça não vinha, sentia que faltava algo ainda, me detive a ver outros depoimentos – de Liliana Furió, de Lorna Milena, de Analía Kalinec, de Mariana Etchecolatz; me pus a ler novos documentos sobre o tema, mas nada do texto da peça, sentia apenas que algo se me ia forjando de forma lenta, e que ainda custaria tempo até que o texto começasse a brotar, ainda assim os futuros personagens iam ganhando em dimensão e aprofundamento, deixando de ser unidimensionais, deixando de lado todo e qualquer maniqueísmo, mas nada da peça; todo modo eu não sentia que o ato de escrever naquele momento me estivesse paralisado, não, isso não, então resolvi escrever outro ensaio, creio que sobre o caso de Bibiana Reibaldi, ensaio que está no livro também.

– Não dá para dizer que a viagem a Figueira foi perdida, não é?

De jeito nenhum, a peça estava se configurando de algum modo. Uma coisa imprescindível, para mim, foi o fato de me surgir o nome da personagem principal, SALINA – surgiu durante esta viagem, nos dias em que eu caminhava horas pelo entorno da lagoa e me banhava até não mais poder. A quantidade de sal no corpo, a salinidade daquela lagoa, isso tudo me jogou nas mãos o nome da personagem protagonista. Lembro de um post no Instagram em que marco este fato, este estado interessante, tal espécie de elemento-vetor que me encetava para algum canto, e a um só tempo, mais além do tema – que me era claro, havia algo no qual eu sentia que podia me agarrar, o nome da personagem principal, apenas um nome, mas não me era pouca coisa isso. O próximo passo? Não era nada muito nítido, mas se trataria de esboçar em uma espécie de escaleta o seu arco de desenvolvimento, ou noutra forma de dizer, a jornada de sua emancipação.

– Ainda demoraria algum tempo para que o texto ‘acontecesse’ em você, digamos assim? E queria acrescentar logo uma segunda pergunta: você disse que escreveu a peça em onze dias, como foi possível isso? Uma peça de três atos, nove cenas, sessenta e quatro páginas…

Sim, eu levaria um semestre inteiro ainda. Escrevi o texto da peça durante onze dias no mês de outubro de 2025, mais precisamente entre os dias 18 e 29 deste outubro; coincidindo com o instante em que o livro MATAR O PAI saiu publicado pela Editora Insular, de Florianópolis. No que tange ao livro, o querido editor Nelson Rolim se prontificou a publicá-lo tão logo contei a ele o que havia investigado na Argentina. Mas voltando a QUANDO NUNCA É TÃO AGORA, foram onze dias de trabalho intenso – as cenas, os diálogos, as rubricas, os atos, as inflexões brechtianas que imprimi no texto, tudo me foi saindo em cascata.

– Lembro de você ter comentado da importância de estar trabalhando com direção de atores em um outro projeto, e que desse contato semanal em sala de ensaio, a peça parece ter emergido ‘de um salto, de brusco’ para sua forma de dizer…

Foi muito curioso esse fato. Estava trabalhando com os atores Raquel Leão e Thiago Carvalho na construção de um esquete de Bonitinha, mas ordinária para uma Mostra de Cenas Curtas do curso de Direção Teatral na Casa de Artes de Laranjeiras (CAL). Em verdade, fizemos uma releitura completa do trecho, mesclando cinema e teatro – e de tal forma que escolhi renomear o que produzimos, Lembra-te que sou Medeia. Era um outro Nelson, algo bastante distinto do que se costuma perceber pelo texto e pela rubrica original. Já havia trabalhado com o Thiago Carvalho, em janeiro de 2020, no curta que escrevi e dirigi, JOÃO PARAPEITO. Thiago é um ator talentoso, disciplinado, criativo – e topou, de imediato, o desafio de se lançar àquele projeto independente, com parcos recursos, mas que tem conseguido entrar em alguns festivais. Raquel Leão, dançarina e atriz, eu a estava conhecendo naquele momento, e fiquei imenso surpreso com tudo o que ela trazia para a sala de ensaio. Me lembro de um dia em que, ao final de três horas exaustivas, lhe sugeri que levasse para casa a tarefa de construir uma partitura coreográfica de dança a partir da canção Súplica, na voz de Orlando Silva. Na semana seguinte, a primeira coisa que fizemos foi ver o que Raquel propunha. Fiquei absolutamente encantado, e incorporamos a dança proposta por ela como elemento condutor do prelúdio da cena que construímos. Creio que naquela mesma tarde/noite de ensaio, ao final, pedi para ler para eles a única coisa que já tinha escrito da peça, ou seja, àquela cena de abertura a que me referi, cena miúda ainda, cena incompleta, mas cena forte, intensa, eles escutaram com atenção cúmplice. No que conto aqui, me vem a imagem inteira, a rede de cuidados, um ‘acuno’ companheiro, Raquel e Thiago eram todo-ouvidos, eu lhes contava dos primeiros passos do que viria a ser a jornada de emancipação de SALINA de um núcleo familiar perverso – SALINA que é filha de Gustavo Niño, oficial de inteligência do Exército argentino. Ao final daqueles cinco minutos de minha leitura, eles estavam tocados, Thiago cheio de ideias, Raquel contando algo de sua estória familiar. Me virei para ela e a chamei de Salina, a expressão que ela montou no seu rosto me foi a exigência da escrita de QUANDO NUNCA É TÃO AGORA.

Foto de ensaio: Mariana Campinho (Salina jovem) e Raquel Leão (Salina adulta)

– A existência da escrita… o texto surge daí? A cascata dos 11 dias?

Sim, sim, era como se a personagem ganhasse um corpo próprio – jeitos, modos, inflexões, olhares, silêncios. Forma de dizer que não estava só e descarnada a SALINA que eu maturava; SALINA que era, até então, nome tema pedaço de estória; agora SALINA caminhava, dançava, se expandia forte e viril, como se atravessasse o palco com rédeas curtas na mão, como se as cenas que eu ia construindo fossem pontuadas por esta gradação e tonalidade que a atriz temperava com seu corpo volátil e expressivo. Em onze dias, o texto estava pronto.

– Imagino que você não queira contar as nuances do enredo, a peça está em processo de desenvolvimento de projeto e em processo de montagem, mas poderia explicar um pouco o uso do que você chamou de ‘inflexão brechtiana’?

Me utilizei deste dispositivo nos três atos – como cenas nas que, de forma didática contamos, por um lado, alguns aspectos da história do terrorismo de Estado na Argentina. Aqui e ali contextualizamos as coisas através da voz dos personagens que se deslocam para o proscênio em uma comunicação direta com o público que estiver assistindo. Inclusive, submeto este formato ao seu próprio escárnio, colocando na boca de um dos personagens a crítica a certa pretensão explicativa.

Foto de ensaio: Raquel Leão (Salina adulta) e Thiago Carvalho (Gustavo Niño)

Por outro lado, aprofundo as possibilidades abertas por tal dispositivo – me utilizando dele para interpelar o público sobre como ele está percebendo a trama; sobre se ele, o público, está notando o jogo de manipulação do dramaturgo se utilizando de artifícios de ilusão e identificação para fazer com que personagens como Gustavo Niño e Alejandro passem ao largo de qualquer juízo prévio de condenação por seus atos aviltantes e nefastos. Mas não apenas, em certa hora deste dispositivo, desembaralho as cartas do jogo, e sugiro que aquele que está se voltando para a plateia não é o personagem, mas o próprio ator descarnado de sua tarefa de interpretação.

– E são quantos os personagens de QUANDO NUNCA É TÃO AGORA?

A família de SALINA é composta por Gustavo Niño (o pai), Nora (a mãe), Vicky (a irmã). No caso da personagem principal, ela se divide em duas: é que o enredo descreve dois instantes históricos – o ano de 1978 em que a Argentina está em plena ditadura e o ano de 1987, já no governo de Raúl Alfonsín, em pleno trabalho da Comissão Nacional acerca dos Desaparecidos Políticos (CONADEP). SALINA tem 13 e 23 anos. Além destas personagens do núcleo familiar, se juntam Alejandro (namorado de Vicky e ajudante de ordem de Gustavo Niño) e Laura (avó de uma criança sequestrada pelos agentes do terrorismo de Estado).

– Pretende viajar com a peça para a Argentina? Fico imaginando que os desobedientes gostariam muito?

Com certeza que sim, mas não apenas para a Argentina. A história que contamos nos toca a todos em Nossa América. Com certeza que não do mesmo modo e perspectiva. Os contornos bem nítidos destas distintas perspectivas estão na ordem do dia do que estamos vivendo nestes tempos sombrios. Apesar de estarmos falando de algo que se passa na Argentina, o rebatimento de tudo nos implica a todos que vivemos sob o jugo opressor do imperialismo, de suas corporações monopólicas e dos seus agentes locais. São as amarras escabrosas de uma dependência que inviabiliza a emancipação política, econômica e social de nossos povos e países. De algum modo, livro e peça espelham a urgência desse testemunho.

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