Argentina prorroga isolamento e cria comissão para combater Covid 19

15 de Abril de 2020, por Duda Hamilton

 

Presidente da Argentina, Alberto Fernández
Presidente da Argentina, Alberto Fernández

De 20 de março até 15 de abril o país vizinho registrou 2.443 casos e 109 mortes. O isolamento social prossegue até 26 de abril e pode ser prorrogado por uma comissão de ministros. Medidas contam com a aprovação da população, segundo pesquisa da Universidade de La Matanza.

Na segunda-feira 13, o presidente da Argentina, Alberto Fernández, prorrogou até o dia 26 de abril o isolamento social, preventivo e obrigatório diante da pandemia da Covid-19, mas não descartou estabelecer exceções. As medidas de isolamento obrigatório na Argentina foram tomadas em 20 de março, quando o país apresentava 97 casos confirmados e três mortes. No último relatório oficial, desta quarta-feira, dia 15, foram verificados 2.443 casos confirmados e 109 óbitos, numa população de quase 46 milhões de habitantes. 

O jornal Pagina12 publicou uma pesquisa realizada por telefone pela Universidade La Matanza que mostra o apoio da população: oito de cada dez argentinos, sem distinção de classe social, consideram correta as medidas do governo.  Foram entrevistadas por telefone 1.230 pessoas da área metropolitana de Buenos Aires.

Para combater e administrar a pandemia, foi criada esta semana a Unidade de Coordenação do Plano de Prevenção de Saúde Pública. A comissão, formada pelos ministros da Saúde, Interior, Desenvolvimento Produtivo, Economia, Trabalho e Relações Exteriores, vai responder diretamente ao chefe de gabinete da Presidência, Santiago Cafiero. Sua função será receber e avaliar as propostas e solicitações dos governadores. Quem terá a última palavra em cada ação será Fernández.  Em entrevista coletiva, as autoridades argentinas de saúde declararam que a doença ainda não alcançou seu pico de contágio no país

“Podemos flexibilizar a quarentena em cidades ou regiões que ainda não apresentaram casos”, disse o presidente. Até esta quarta-feira, dia 15, apenas dois dos 21 distritos/províncias, o equivalente a estados – Catamarca e Formosa – não apresentavam casos confirmados. Cidade de Buenos Aires (667), Buenos Aires (618), Córdoba (222) e Santa Fé (207) são os lugares com o maior número de casos confirmados.  

Em entrevista à Dfato Comunicação, o jornalista argentino Javier Sahade (leia depoimento abaixo) conta que o governo antecipou as medidas de proteção, declarando quarentena logo no início dos casos. A decisão, segundo o jornalista, foi bem vista pela população.  “Os argentinos estão apoiando as medidas do novo governo e isso se nota na população, entre os que votaram em Fernández e muitos dos que não votaram, mas acreditam nas medidas acertadas”, explica Sahade. Ele mora em Buenos Aires, num apartamento, com a mulher, a filha de três anos e uma cachorra. “Trabalhamos de casa, minha mulher é professora e acompanha os alunos online, uma determinação do Ministério da Educação”, conta.

Controles serão mais austeros nos grandes centros

Fernández reiterou que vai privilegiar a vida e não a economia, e que não aceita pressões de quem quer suspender a medida do isolamento obrigatório.  “A quarentena vai continuar e terá controles ainda mais restritos, principalmente nos grandes centros urbanos, onde se concentram os casos”, alertou. O vice-chefe de Buenos Aires, Diego Santilli, destacou a importância de todos os portenhos cumprirem a quarentena e alertou que a polícia da cidade está encarregada de monitorar sua efetiva conformidade nas ruas. “Para combater essa pandemia, todos temos que ficar em nossas casas”, disse,. 

Atualmente, as pessoas só podem fazer deslocamentos mínimos e essenciais para estocar suprimentos de limpeza, medicamentos e alimentos. Nestes casos, as autoridades não exigem licenças de circulação, mas em outros sim. As pessoas isentas de cumprir o “isolamento social, preventivo e compulsório” devem ter uma certificação que confirme sua condição perante as autoridades, caso seja solicitado o documento. Entre as pessoas que devem estar com o documento em mãos estão os trabalhadores da saúde, justiça de plantão, forças de segurança, forças armadas, bombeiros, atividade migratória e serviços de comunicação.

Depois de muitas críticas, os bancos reabriram na segunda-feira. “Deixar os bancos fechados por todo esse tempo foi uma das poucas medidas erradas tomadas por Fernández”, diz o jornalista Javier Sahede.  A pedido da Dfato, Sahade contou mais sobre sua rotina durante o isolamento na Argentina. 

DEPOIMENTO
Javier Sahade, editor e coordenador de Perycia, agência de notícias digital fundada em 2017, com foco em jornalismo e justiça, tendo como referência os Direitos Humanos e o Gênero, e redator da rádio Província.

“A situação da pandemia na Argentina é preocupante, mas acredito que estamos melhor do que outros países, pois até agora não tivemos uma explosão de casos, comparados com outros países. O governo está sabendo atuar e existe um bom assessoramentos dos especialistas em saúde.

O que mais me preocupa é a taxa de mortalidade do vírus na Argentina. Tenho a sensação que é alta, 3,7%, em relação aos casos. A média da Organização Mundial da Saúde (OMS) é um pouco mais baixa para a Covid-19.  Temos menos casos que em outros países, mas ao mesmo tempo, proporcionalmente, mais mortos. Do ponto de vista econômico, já vínhamos em crise desde o governo do Macri. A Covid-19 a agrava ainda mais. Estão ocorrendo demissões e há também trabalhadores ganhando menos, com redução de salários. 

Estou preocupado com a situação dos setores mais vulneráveis da população, os  mais pobres com menos recursos, que não podem cumprir a quarentena como as pessoas de classe média e alta. Essas pessoas não têm trabalho formal, vivem em pequenas casas, saem em busca de comida todos os dias, não têm condições de higiene para cumprir as normas que exige o governo. Muitas vezes nem água potável eles têm para lavar as mãos. Essa é a situação mais delicada, acredito. 

Nossa posição é bem diferente do Brasil. Nós não subestimamos a doença e o governo tem um apoio importante da população. Algumas pesquisas indicam um aumento na popularidade de Fernández. O governo está assessorado por uma equipe especializada em saúde e acredito que tanto a esquerda como a direita estão apoiando, inclusive alguns setores econômicos que querem flexibilizar a quarentena”.