México: protestos contra o gasolinaço

11 de Janeiro de 2017, por Elaine Tavares


Desde o dia primeiro de janeiro, quando o presidente Peña Nieto decidiu colocar a mão no bolso da população, com a justificativa de que precisa sanar as finanças do país que o México vive uma onda avassaladora de protestos. O detonador foi o aumento da gasolina anunciado no primeiro de janeiro e contabilizado como o maior dos últimos 20 anos, chegando a um índice de 20%.  Só nos últimos 4 anos a gasolina já aumentou 50% e o aumento de 2017 foi o estopim para as mobilizações contra Peña Nieto. Além disso, no bojo do aumento, o governo mexicano decidiu acabar com o monopólio da Pemex, empresa estatal de petróleo. Agora, as portas estarão abertas para as empresas estrangeiras.

Os argumentos usados pelo presidente é um velho conhecidos dos trabalhadores: a estatal dá prejuízo. Segundo o presidente a Pemex é uma empresa em crise que tem perdas de até 40 milhões de dólares e dívidas de mais de 100 milhões. Certamente uma mentira a mais visto que o México é o quarto maior consumidor de combustíveis no mundo, 190 milhões de litros ao dia para uma população de 120 milhões de pessoas. A verdade dos fatos é a mesma que se apresenta quando os governos querem privatizar suas empresas estatais: gerar o déficit, desmanchar, destruir, pra vender a preço de banana para as empresas “abutres” que já estão esperando a carniça. Mas, o que fica não é “carniça” e sim um conglomerado gigantesco que logo, logo dará muitos lucros aos empresários.

Não fosse isso como justificar que a Pemex esteja com suas refinarias operando em 60% de sua capacidade?  E por que está produzindo a menor quantidade de petróleo desde os anos 80? Porque a intenção é entregar todo o patrimônio às empresas multinacionais. 

Mas, o aumento da gasolina não aconteceu na “paz”, como queria Peña Nieto, enquanto curtia férias com a família. A resposta do povo mexicano veio rápida, contra o que estão chamando de “gasolinaço”. As pessoas sabem que o aumento na gasolina vai acabar repercutindo em toda cadeia produtiva, chegando finalmente aos alimentos, que já registram altas de 15 a 18%. O milho que é a comida básica do mexicano já disparou. O governo diz que há que denunciar quem aumentar os preços da comida, visto que os 32 mil produtores do setor agropecuário terão estímulos fiscais para compensar a alta da gasolina. Mas, quem vai fiscalizar? O povo? Além de jogar o ônus para as pessoas, o governo ainda tem a cara de pau de responsabilizar as pessoas pela fiscalização dos abusos. Isso é inaceitável. 

Por conta disso a resposta da população tem sido imediata.  Grupos grandes de pessoas estão ocupando lojas e supermercados, justiceiros estão agindo. Há uma movimentação gigantesca de lutas, protestos e saques. Já foram registradas mortes nos enfrentamentos de jovens e polícia. Estradas são bloqueadas. 

A onda de protesto se alastrou por 19 estados do país e já contabilizou 1.500 presos, dezenas de feridos, quatro mortes e mais de 400 comércios saqueados. A cidade de Monterrey foi a que registrou maiores mobilizações, inclusive com ataques ao palácio do governo. Os enfrentamentos com a polícia são violentos. Também há registro de incêndios nos postos de gasolina, distribuição gratuita de gasolina e construção de barricadas nas ruas, além de bloqueio nas estradas. Manifestantes também estão tomando conta dos pedágios e impedindo a cobrança. No México, a ação direta é lei entre a população. 

O governo aumentou o preço da gasolina por conta do tremendo déficit nas contas públicas, fruto justamente da má administração e da entrega do país ao timão estadunidense. E quem está pagando a maior parte da conta, como sempre, são os mais pobres, visto que quem compra a gasolina em grande quantidade consegue melhor preço. Já os consumidores comuns que pagavam 14 pesos o litro (o que já era caro), agora, com a liberação dos preços têm de desembolsar até 20 pesos, embora o governo diga que está fiscalizando os abusos. 

Como os salários são muito baixos no México e o consumo de gasolina é alto, a população não viu outra saída que não a ação direta de tomada dos postos e de enfrentamento com o governo. Os empresários cobram dureza do governo e é o que o governo está dando através das ações policiais. Mas, os protestos não param e o governo terá de negociar. Hoje, empresários ligados a Confederação Patronal da República Mexicana estão chamando uma reunião com o governo, na qual pedirão que cessem os aumentos da gasolina para que o país possa se acalmar. 

Como não há qualquer proposta de que os preços caiam, certamente as lutas devem continuar.