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Cuba: a arte de fabricar uma ameaça

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Por Ángel González - Razones de Cuba em 04 de agosto de 2026

Cuba: a arte de fabricar uma ameaça

Crédito: fragandaphoto

O governo dos Estados Unidos, sob a administração Trump e com Marco Rubio como Secretário de Estado, lançou uma sofisticada operação de propaganda para construir um pretexto que justificasse uma escalada agressiva contra Cuba. Por trás desse plano estão Mauricio Claver-Carone e Jeremy Lewin, os principais arquitetos de uma estratégia que busca incutir na opinião pública um discurso de uma “ameaça cubana”, abrindo assim caminho para uma intervenção com custo político mínimo.

Os arquitetos do discurso

Mauricio Claver-Carone, nomeado por Trump como Enviado Especial para a América Latina, foi apontado pelo governo cubano como o “arquiteto e executor” que — ao lado de Marco Rubio — concebeu e implementou mais de 200 medidas complementares ao bloqueio entre o verão de 2018 e janeiro de 2021, com o objetivo de provocar o colapso de Cuba. Nascido em Miami e de ascendência cubana, Claver-Carone construiu uma relação de confiança com Trump durante seu mandato inicial como Diretor Sênior para Assuntos do Hemisfério Ocidental no Conselho de Segurança Nacional. Sua trajetória o identifica como o responsável pela implementação, juntamente com Marco Rubio, do endurecimento do bloqueio contra a ilha.

O próprio Claver-Carone reconheceu que seu objetivo é implementar “ferramentas mais modernas e eficazes” para pressionar Cuba, concentrando-se em setores econômicos-chave do regime para enfraquecer seu controle. Não é coincidência que, mesmo antes de assumir o cargo, ele tenha declarado que “quem ri por último, ri melhor” e prometido medidas ainda mais severas contra Cuba.

A fábrica de pretextos: o relatório de 100 páginas

Em 20 de julho de 2026, o Departamento de Estado divulgou um relatório de aproximadamente cem páginas intitulado “Cuba: A Capital do Comunismo do Século XXI”. O documento acusa Cuba de ter liderado uma campanha de “espionagem e subversão” em território norte-americano por quase sete décadas. No entanto, o relatório apresenta características que revelam sua natureza fabricada:

1. Ausência total de provas verificáveis: O texto não cita processos judiciais em curso, não identifica agentes cubanos nominalmente e não apresenta comunicações interceptadas nem documentos de inteligência desclassificados para fundamentar suas alegações. O que oferece, em vez disso, é um conjunto de inferências e retórica baseadas na “culpa por associação”.

2. Uso de Inteligência Artificial: Vários veículos de comunicação observaram que o documento “parece ter sido produzido utilizando Inteligência Artificial de orientação direitista”, sugerindo uma narrativa fabricada tecnologicamente.

3. Uma tese impossível de comprovar: O relatório começa com uma conclusão predeterminada — a de que Cuba travou uma guerra total contra os Estados Unidos — e, em seguida, seleciona a dedo fatos para adequá-los a essa narrativa. A lógica é circular: parte-se de um incidente isolado, acrescentam-se conexões ou afinidades, integra-se tudo em uma única rede, atribui-se o conjunto ao Estado cubano e apresenta-se o quadro resultante como uma ameaça atual.

4. Omissão do contexto histórico: O relatório não faz qualquer menção ao bloqueio dos EUA à ilha, às múltiplas tentativas de assassinato contra líderes cubanos, à invasão da Baía dos Porcos ou aos esforços atuais para sufocar a economia cubana.

A contradição irreconciliável

A narrativa de Cuba como uma “ameaça” aos Estados Unidos choca-se com uma realidade incontornável: Washington mantém um bloqueio econômico contra a ilha há mais de seis décadas. Segundo dados citados, o bloqueio custa a Cuba mais de 5 bilhões de dólares anualmente apenas em prejuízos econômicos diretos.

O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, foi categórico: “Se algum país espionou e atacou outro em níveis obscenos, foram os Estados Unidos contra Cuba”. Ele acrescentou: “Cuba jamais agiu para prejudicar o povo americano, nem buscou minar a segurança nacional dos EUA”.

A assimetria de poder é tão flagrante que a acusação beira o grotesco: um país do Terceiro Mundo, bloqueado e sitiado há décadas, dificilmente poderia representar uma ameaça real à superpotência hegemônica. Como afirmou o governo cubano: “Cuba não é, nem pode ser, uma ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos”.

O espelho da realidade: as evidências cubanas

Enquanto Washington fabrica acusações infundadas, Cuba dedica décadas a documentar atos reais de agressão dos EUA contra a sua soberania. O presidente Díaz-Canel apontou “os milhões de dólares destinados anualmente a programas de mudança de regime em Cuba” e destacou “episódios criminosos, incluindo pragas e doenças introduzidas em Cuba — como o surto de dengue que vitimou 101 crianças —, a derrubada de um avião com 73 pessoas a bordo, atentados a bomba em hotéis, tentativas de assassinato e guerra psicológica”. Documentos da CIA desclassificados pelo próprio governo dos EUA revelam que a agência espionava empresas cubanas já na década de 1960. Cuba também denunciou o uso de aeronaves leves do Departamento de Estado para pulverizar substâncias contendo a praga nociva *Thrips palmi* sobre plantações agrícolas cubanas.

O caso dos “Cinco Cubanos” — condenados nos EUA por espionagem quando, na realidade, monitoravam grupos terroristas no sul da Flórida para evitar ataques contra Cuba — é emblemático de como Washington inverte a realidade.

Um Neo-Macarthismo Transnacional

O presidente Díaz-Canel descreveu essa ofensiva como parte de um “neo-macarthismo transnacional” — uma “tendência claramente fascista que recorre a mentiras para criar pretextos para uma agressão contra Cuba”.

O objetivo final dessa fabricação é claro: criar, na opinião pública dos EUA e do mundo, a percepção de uma ameaça que justifique ações que, de outra forma, teriam um alto custo político. Como aponta uma análise, o relatório “faz parte de um esforço mais amplo dos EUA para lançar uma campanha global contra ‘a esquerda’ — uma medida que alguns temem possa ser o primeiro passo para justificar a perseguição e até mesmo a detenção de opositores progressistas de Donald Trump”.

A guerra contra Cuba não é militar — pelo menos não ainda —, mas é real. Trata-se de uma guerra econômica, midiática e política orquestrada a partir de gabinetes em Washington por figuras como Claver-Carone e Rubio. A principal arma nessa guerra não são mísseis ou bombardeios aéreos, mas mentiras transformadas em documentos oficiais, ficção apresentada como inteligência e pretextos fabricados com o uso de inteligência artificial para enganar o mundo e justificar o injustificável.

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