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A direita em seu labirinto

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Por Michel Goulart da Silva em 25 de fevereiro de 2026

A direita em seu labirinto

Este ano, diante da eleição presidencial, os diversos setores da direita se veem em um complexo labirinto. Embora enfraquecido se comparado aos pleitos anteriores, o bolsonarismo ainda persiste como força política, se colocando como alternativa aos setores conservadores. Essa postura coloca dilemas em especial para o campo da direita que busca alternativas mais práticas e menos ideológicas. O bolsonarismo, por sua vez, em seus costumeiros delírios, demonstra muito mais interesse em parecer estar sempre em campanha eleitoral do que em atender os interesses da burguesia na gestão do Estado.

Para a direita, se colocam duas opções. Por um lado, apoiar algum dos herdeiros diretos do bolsonarismo, como seu filho Flávio, fazendo um pleito de polarização na tentativa de minar a reeleição de Lula. Por outro, coloca-se a possibilidade de um representante mais afinado com o chamado Centrão, como Tarcísio ou algum nome do PSD de Kassab, procurando levar para o Poder Executivo o controle que esse campo político exerce no Legislativo. O discurso a ser defendido por uma candidatura articulada pelo Centrão dependeria da conjuntura, podendo ser algo mais tradicional da direita ou um bolsonarismo de ocasião, como o que elegeu Tarcísio e outros políticos nas últimas eleições.

Na direita, é possível identificar três grandes grupos. Um primeiro grupo, mais política e ideologicamente coeso, se constitui daqueles que defendem a manutenção da ordem como princípio e estratégia. Nesse sentido, tanto combate a ideia de transformação da sociedade por meio do socialismo como a permanente agitação bolsonarista que visa outra coisa dar coesão à sua base de apoio. Esse primeiro grupo são os setores que apoiaram de forma entusiasta o programa neoliberal materializado na gestão de FHC. Esses setores, ainda que defendam uma política de austeridade, não possuem uma perspectiva reacionária em temas ligadas às questões morais ou comportamentais.

O segundo grupo são os setores práticos da direita, cuja atenção se volta para a obtenção de interesses imediatos. Não possuem posições homogêneas em relação à política econômica ou a questões morais e comportamentais, se adaptando à medida que a conjuntura avança. No geral, defendem políticas conservadoras, mas, diante da possibilidade de obter benesses, podem inclusive apoiar medidas que se aproximem da esquerda. Um dos principais exemplos é o Progressista, que, a despeito de ser herdeiro da ditadura e um dos partidos mais conservadores do Congresso Nacional, chegou a ocupar cargos em governos do PT. Em grande medida, de um ponto de vista partidário, esse segundo campo trata-se do Centrão, com sua prática de permanente negociação no sentido de alcançar cargos no Estado e de obter financiamento que garanta sua base eleitoral, se materializando, entre outros partidos, no PSD, no União Brasil e no MDB.

Por fim, o terceiro campo é do bolsonarismo. Trata-se também de um campo política e ideologicamente mais coeso, tanto no sentido de defesa da ordem econômica e política como no da manutenção moral da sociedade. Utiliza-se da agitação política permanente para mobilizar sua base social, se limitando a pautas como crítica da corrupção, defesa da família e apologia de medidas de privatização do Estado. Contudo, ao mesmo tempo, denunciam o atual status quo como uma construção dominada pela esquerda, que estaria encabeçando uma conspiração em âmbito internacional. O centro da política bolsonarista passa por uma espécie de moralização da sociedade, derrubando não as atuais instituições, mas as pessoas que as ocupam e as utilizam supostamente para fazer doutrinação e perseguir os “cidadãos de bem”.

Nas duas últimas eleições a direita ficou a reboque no bolsonarismo. Um amplo campo conservador se construiu nos anos anteriores, inclusive com mobilizações de rua, sendo a base fundamental para fraudes político-jurídicas como o impeachment de Dilma, a prisão de Lula e a Operação Lava Jato. Esse amplo campo se formou a partir de um programa mínimo, em torno da denúncia à corrupção e associado isso ao PT. Ele acabou se valendo da revolta em relação às instituições, deturpando as críticas desenvolvidas no contexto das mobiliações de 2013. O discurso demagógico da direita ganhou grande espaço. Essa frente despolitizada foi a base eleitoral da eleição de Bolsonaro em 2018. O projeto passava por derrotar o PT, mesmo que para isso fosse necessário entregar o governo para um conjunto de pessoas mais preocupadas com uma pregação ideológica reacionária.

Com o governo Bolsonaro, que teve dificuldade em aplicar suas medidas desastrosas diante da tripla crise – econômica, política e sanitária – e se limitou a manter a agitação de sua base via redes sociais, a própria direita entendeu que precisava romper com os delírios bolsonaristas. No ano de 2022, uma parte da direita seguiu com o bolsonarismo e outra parte, depois do desastre da “terceira via”, acabou aderindo ao bloco liderado por Lula. O novo governo presenteou a direita com alguns ministérios e outros cargos, ocupados por União Brasil, PSD e MDB. Em 2022, a direita se mostrou sem projeto, oscilando entre o seguidismo aos delírios bolsonaristas e a unidade prática com o PT.

Em 2026, a direita encontra-se novamente em uma encruzilhada. Por um lado, construir um projeto próprio, com base em um programa, como o neoliberalismo na base de apoio a FHC. Por outro, de seguir com sua presença em cargos de destaque, seja apoiando Lula, seja apoiando um representante do campo de Bolsonaro. Um elemento que se leva em conta passa pelo favoritismo de Lula nesta eleição e pela sua provável aposentadoria em 2030. Com isso, figuras como Tarcísio ou Ratinho Jr. podem optar por concorrer a outros cargos, como a reeleição no caso do governador de São Paulo, e pleitear a eleição presidencial daqui a quatro anos. Outro elemento a se considerar nesses cálculos passa pela continuidade do enfraquecimento do bolsonarismo, que deve se tornar mais uma entre outras tantas correntes da direita.

Muitos seguimentos da direita devem optar por não queimar algum nome agora e ficar encoberta pelos nomes de Lula ou de Bolsonaro. Possivelmente alguns setores da direita apostam no enfraquecimento do bolsonarismo com a possível derrota nesta eleição. Com isso, devem lançar candidaturas de menor peso político, para, ao mesmo tempo, dar amplitude a suas candidaturas regionais e se manter formalmente neutro na polarização entre petistas e bolsonaristas. Portanto, o cenário coloca para a direita a ausência de uma candidatura que represente seus interesses diretos, optando por ficar a reboque ou do bolsonarismo ou do petismo, se abstendo de construir um projeto político próprio.

 

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