Memória: A primeira Jornada Bolivariana
Texto: IELA
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Depois de quase 15 anos da abertura da investigação judicial iniciou, no último dia do mês fevereiro, em Buenos Aires, um julgamento que, de algum modo, resgata a história de 34 crianças roubadas de suas famílias pelos artífices da ditadura argentina (1976/1983). Ex-ditadores que usurparam o governo constitucional na Argentina, respondem pelo crime de apropriação dos filhos de mulheres e homens sequestrados, torturados e desaparecidos pelo regime de terror que instauraram depois do golpe militar de 24 de março de 1976.
Na primeira audiência do julgamento, a juíza María del Carmem Roqueta, que preside o Tribunal Oral Federal 6 e conduz o julgamento, chamou os oito acusados pelos nomes. Entre eles, Jorge Rafael Videla, que governou o país de 1976 a 1981 e já cumpre prisão perpétua, e Reynaldo Benito Bignone, o último ditador antes da retomada da democracia no país, em 1983, também condenado por delitos de lesa humanidade.
Ao lado deles, outros notórios homens fortes do exército, da armada e da prefeitura, além de um médico. Quatro acusados, entre os quais o ex- almirante Emilio Eduardo Massera, não mais serão julgados, porque já morreram. A previsão é de que o processo dure no mínimo oito meses, período em que serão ouvidas pelo menos 370 testemunhas.
O julgamento representa mais um passo na luta das “Abuelas de Plaza de Mayo” que, há mais de 14 anos, apresentaram na justiça a denúncia do roubo de bebês como parte de um plano sistemático de apropriação de filhos de homens e mulheres sequestrados e desaparecidos. As avós argentinas, cujos netos foram roubados como butim de guerra, jamais desistiram de ver punidos os culpados pela subtração e ocultamento de suas crianças, estratégia utilizada pela ditadura para resolver o problema dos meninos e meninas que nasciam no cativeiro ou haviam sido sequestrados juntamente com seus pais. A organização das avós dedica-se à incessante busca de filhos de desaparecidos, exigindo a punição de todos os responsáveis. Entre os acusados neste processo em andamento, além dos ditadores Videla e Bignoni, também se encontram Antonio Vañek, Jorge Eduardo “El Tigre” Acosta, Santiago Omar Riveros, Rubén Oscar Franco e, como autores materiais, Juan Antonio Azic e o médico Jorge Luis Magnacco.
Muitas das crianças procuradas nasceram durante o cativeiro de suas mães, sequestradas quando estavam grávidas, enquanto outros pequeninos, aprisionados com os pais, depois foram liberados para serem criados como filhos biológicos pelos próprios agentes das forças de repressão, ou dados a famílias incógnitas que desconheciam sua procedência, ou, ainda, vendidos ou abandonados em institutos. Estima-se que cheguem a 500 os meninos e meninas roubados, dos quais cerca de100 foram encontrados até agora. Para desenvolver suas buscas e garantir a validade das análises de consangüinidade, as “Abuelas de Plaza de Mayo” contam com um Banco de Dados Genéticos, criado por lei, onde constam os mapas genéticos de todas as famílias que têm crianças desaparecidas.
Plano macabro
Presentes na primeira audiência do julgamento estavam vários filhos de homens e mulheres assassinados ou desaparecidos pela ditadura. A promotoria expôs minuciosamente os detalhes sórdidos de como a ditadura colocava em prática o delito de roubo e recolocação das crianças em famílias “substitutas”, ao mesmo tempo em que os pais eram assassinados, na maior parte dos casos. A leitura do processo, na primeira audiência, revelou detalhes do funcionamento das “maternidades” clandestinas, localizadas em locais estratégicos, e também aspectos dos critérios para a “adoção” das crianças. A tese que a acusação apresenta é de que “maternidades” clandestinas foram concebidas pela ditadura como uma prática sistemática. Na sala do tribunal ouviu-se a descrição aterradora da montagem de tais estruturas onde foram trancafiadas e deram à luz as prisioneiras grávidas.
A estratégia sinistra de repressão foi apresentada pela promotoria como parte de um plano geral criminal de “reorganização nacional’’, que tinha como finalidade invadir todos os espaços da sociedade para “normalizar” as pessoas de acordo com um ideal que previa reformar o outro ou negá-lo até a eliminação. É a partir dessa lógica que se constrói o critério de “dar” os filhos nascidos no cativeiro, para que, em outras famílias, não subversivas, fossem criados segundo o “imaginário social” imposto pelo regime de exceção.
Segundo o que foi exposto pela promotoria, e divulgado pela imprensa, os bebês das desaparecidas grávidas nasceram em diversos locais, mas muitas, para dar à luz, eram transferidas para “maternidades” ilegais, montadas em centros também clandestinos, localizados principalmente em Buenos Aires e província, e, depois devolvidas a seus cárceres ocultos. Na perspectiva da acusação, a “questão dos menores” foi concebida pela ditadura como um plano criminal de permitir o nascimento das crianças para sua posterior apropriação pelo regime.
Entre os vários locais em que nasceram os filhos das desaparecidas, foram citados, minuciosamente, três dos principais centros clandestinos estratégicos, que funcionavam na Escuela Mecánica de la Armada (ESMA), Campo de Mayo e Pozo de Banfield. Nesses lugares macabros deram à luz mulheres sequestradas que ali tinham sido feitas prisioneiras, mas também eram transferidas outras grávidas que se encontravam aprisionadas em outros centros de tortura.
A “maternidade da ESMA, por exemplo, conforme exposto pela promotoria, funcionou no cassino dos oficiais, e era nominada como “La Sardá por izquierda”, “La maternidad Sardá” o “La Sardá de Chamorro”. Alguns sobreviventes contaram que ali as mulheres grávidas tinham um quarto onde ficavam poucos dias com seus bebês. Foi desse lugar que testemunhas afirmaram ter visto sair, várias vezes, com criancinhas nos braços, o ex-prefeito Antonio Febres.
A acusação também apresentou uma descrição do funcionamento da maternidade Del Pozo de Banfield, situada em Lomas de Zamora. No local funcionou uma enfermaria que dispunha de leito e instrumentos cirúrgicos. Já em Campo de Mayo os partos das sequestradas grávidas eram feitos em barracões até meados de 1977 e depois no Hospital Militar.
Alguns dos filhos que viveram o drama de terem sido roubados de seus pais, estavam presentes no tribunal. Também estavam lá, avós, que jamais renunciaram à busca dramática de seus netos desaparecidos e roubados pelos repressores. Suas imagens, como narra Alejandra Dandan, do jornal Página 12, “replicadas por las cámaras del Incaa (Instituto Nacional de Cine y Artes Audivisuales) presentes en cada una de las audiencias de estos nuevos juicios iban generando un contrapunto con las caras de los represores.”
Videla, que já cumpre prisão perpétua por causa de tantos outros delitos, chegou ao tribunal algemado. No final da audiência, como revelaram imagens divulgadas pelos meios televisivos, o octagenário carcereiro da ditadura dormiu.
* No texto são citadas informações disponíveis no portal “Abuelas de Plaza de Mayo” e no Jornal “Página 12”.
Texto: Michel Goulart da Silva
Texto: Elaine Tavares
Texto: Elaine Tavares
Texto: Elaine Tavares
Texto: Elaine Tavares