Lula e a banalização da política exterior
Texto: IELA
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Publicamos recentemente o livro “De Bolsonaro a Lula: polarização política e luta de classes”, pela editora Todas as Musas. O livro reúne oito textos anteriormente publicados na revista Contrapoder, entre dezembro de 2024 e outubro de 2025. Os textos, que discutem elementos da conjuntura, centrados no período entre os governos de Bolsonaro e de Lula, apresentam uma crítica às ações desses governos, seja pelo golpismo de Bolsonaro, seja pela colaboração de classes em Lula. O livro também procura analisar elementos políticos e organizativos da esquerda e, em particular, dos segmentos que se reivindicam comunistas.
Os textos se dividem em três blocos, o primeiro dos quais discute elementos relacionados ao bolsonarismo. O primeiro capítulo discute elementos referentes à ausência de apoio por parte da burguesia à tentativa de golpe encabeçada por Bolsonaro. O capítulo seguinte discute a intentona bolsonarista de 8 de janeiro e sua relação com as instituições da democracia burguesa. O terceiro capítulo aborda o recente debate sobre a anistia e sua relação com os resquícios da transição da ditadura.
Um segundo bloco de textos é dedicado ao debate sobre a esquerda. O quarto capítulo procura analisar as elaborações sobre o socialismo ao longo da história do Partido dos Trabalhadores (PT). O quinto capítulo procura discutir o debate do governo democrático popular e a estratégia concretizada pelo PT. O sexto texto procura analisar o processo que levou ao impeachment de Dilma Rousseff.
Um terceiro bloco de textos discute os elementos estratégicos da esquerda socialista. O sétimo texto analisa a trajetória do PSOL e sua integração às instituições burguesas. O oitavo a último texto procura discutir o processo de organização dos comunistas e aponta para algumas possíveis tarefas políticas.
O livro, em seu conteúdo, procura mostrar que o mandato presidencial de Jair Bolsonaro esteve marcado por críticas e tensões, em grande medida por conta de ações políticas questionáveis, por falas com conteúdo polêmico e, ao final, pela tentativa de golpe. Destaca-se também a postura desprezível assumida pelo governo diante da pandemia provocada pela Covid-19.
Outro elemento de destaque passou por sua retórica, usando inclusive redes sociais, que flertava com o autoritarismo, mostrando intentos bonapartistas e uma vontade golpista que, apesar de articulada junto ao seu núcleo mais leal de parlamentares e militares, não teve apoio de segmentos empresariais. Esses elementos foram publicizados por conta da vasta documentação analisada no julgamento, que levou à prisão de Bolsonaro e outros de seus apoiadores, no Supremo Tribunal Federal (STF).
Outro aspecto, entre outros tantos que poderiam ser mencionados, passou pela política para a educação. Em parte, essa pauta esteve baseada em uma perspectiva conservadora, que ganhou notoriedade em especial por procurar institucionalizar as ações do movimento Escola Sem Partido. Outra marca de sua postura em relação à educação passou pelo ataque às universidades, supostamente um espaço de infiltração comunista. O governo tentou entregar ao setor privado parte das ações de pesquisa e extensão realizada nas universidades, propondo o programa Future-se, rejeitado por ampla maioria pela comunidade acadêmica.
Os flertes autoritários de Bolsonaro se deram antes mesmo de sua posse como presidente. Em um de seus arroubos retóricos, chegou a falar em “varrer do mapa os bandidos vermelhos” e, na véspera da posse, discursou contra o “lixo comunista”. Essas falas marcaram o mandato de Bolsonaro, como se estivesse em uma permanente campanha eleitoral, apontando inimigos em diferentes espaços, sempre colocando em cena a ameaça de realizar um golpe. Mesmo que não tenha realizado um golpe, muitas de suas ações passaram pelo aumento de ações de perseguição e coação, utilizando-se, entre outras coisas, de elementos da Lei de Segurança Nacional.
Em grande medida, essas ações expressam uma capenga tentativa de bonapartismo, ou seja, de um governo que procura se colocar acima das classes sociais, diante da dinâmica de polarização social, procurando manter para as classes dominantes o controle do Estado. Para Bolsonaro, diante de suas permanentes tensões com outras instituições do Estado e do paulatino enfraquecimento de sua base social, isso não passou de exercícios retóricos.
Outro tema recorrente em relação ao governo e à postura do ex-presidente passa pelas ações no sentido de fazer apologia da ditadura iniciada com o golpe de 1964. Desde a década de 1980, diante da transição para a Nova República, setores militares elaboram versões revisionistas acerca da ditadura, procurando minimizar o papel da violência política exercida pelo Estado e justificar a perseguição e assassinato dos opositores. Se no mandato parlamentar de Bolsonaro as ações se resumiam à apologia ao torturador Ustra, no governo, entre outras coisas, o Ministério da Defesa passou a publicar comunicados defendendo a “revolução” de 1964.
Esses discursos expressam as interpretações históricas e as ideologias conservadoras de uma parcela dos militares que vivenciaram sua carreira militar nas décadas de 1960 e 1970. Eles segmentos têm o objetivo de convencer as novas gerações, tanto de civis como de militares, de que a historiografia que vem sendo realizadas e divulgada nas últimas décadas pelos pesquisadores acadêmicos a respeito do golpe e da ditadura seriam distorções dos fatos que teria “realmente acontecido”.
Portanto, houve no governo Bolsonaro uma certa nostalgia dos tempos da ditadura, inclusive expressando contemporaneamente um anticomunismo que dialoga com aquele que inspirou o golpe 1964. Essa perspectiva de Bolsonaro pode ser percebida em grande medida por conta do projeto educacional defendido pelo presidente e seus apoiadores ideológicos. O projeto Escola Sem Partido ou suas variantes, defendidas por Bolsonaro e seus apoiadores, procurava denunciar uma suposta doutrinação dos professores em escola e universidades e propunha, por um lado, a criminalização da atividade docente e, por outro, que fossem ensinados não apenas conteúdos com perspectivas teóricas diversificadas, mas inclusive teorias sem fundamentação científica comprovada, como o criacionismo.
O processo político que permitiu a constituição do governo Bolsonaro tem relação com a forma como se deu a transição da ditadura para uma democracia restrita, marcada pela presença não apenas de uma legislação que visa proteger a propriedade privada e os interesses empresariais, mas que também permite aos militares exercerem influência sobre as decisões políticas do regime construído na chamada Nova República. Diante desse processo, os militares construíram suas próprias representações e interpretações da realidade objetiva e das disputas políticas das últimas décadas, inclusive uma falsa compreensão da Lei de Anistia.
No campo na narrativa histórica, ainda que careçam da análise rigorosa de fontes ou mesmo da compreensão da Teoria da História, o que se tem entre os militares é um revisionismo, que adapta aos seus interesses políticos imediatos a história contada acerca das décadas de 1960 e 1970. Esse revisionismo, em parte, também acabou penetrando as pesquisas acadêmicas acerca da ditadura, algumas das quais passaram a relativizar aspectos relacionados ao golpe ou ao regime ditatorial.
Do ponto de vista da esquerda, colocava-se no cenário grandes desafios, ainda que, de forma imediata, o mais importante passava por superar o governo Bolsonaro. Embora se mobilizando por derrubar o governo, os trabalhadores foram levados por suas direções políticas a esperar a eleição de 2022.
Nesse processo, a eleição de Lula significou muito mais um alívio para uma população que havia sofrido por seis anos com governos marcados por ataques a direitos. Contudo, o novo governo, ainda que tenha tomado medidas para melhorar de forma urgente alguns problemas mais sentidos pelos trabalhadores, não foi capaz de romper com a lógica dos interesses capitalistas e de colaboração com o imperialismo. Esse é o ponto da conjuntura em que terminam as análises apresentadas no livro, na medida em que não se tem ainda um quadro completo do processo político de 2026.
Esses são alguns dos elementos tratados ao longo do livro. Os textos reunidos foram escritos com vistas a intervir no debate público, seja analisando elementos da conjuntura, seja apresentado análises teóricas, seja discutindo táticas e estratégias da esquerda. Nesse sentido, procuram contribuir para a reflexão crítica da realidade e da organização dos trabalhadores.
Clube de Autores: https://clubedeautores.com.br/livro/de-bolsonaro-a-lula
Amazon: https://www.amazon.com.br/Bolsonaro-Lula-Polariza%C3%A7%C3%A3o-pol%C3%ADtica-classes/dp/8595832110/ref=sr_1_1
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