Memória: A primeira Jornada Bolivariana
Texto: IELA
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Sobre o desenvolvimento
Nildo Ouriques – Professor do departamento de economia da UFSC.Embora parecesse ser um hábito comum, conosco não dava muito certo, sobretudo porque só começávamos a fazer as malas um pouco antes de o trem entrar na estação. E aí naturalmente já estávamos aflitos e mal tínhamos esperança de alcançar o trem, muito menos de conseguir bons lugares
Franz Kafka.
14.03.2011- O desenvolvimentismo é a religião dos países periféricos. Sem a fé sobre as possibilidades do desenvolvimento não há recurso, exceto aceitar a “administração competente” do subdesenvolvimento e, em conseqüência, realizar uma digestão moral da miséria e da exploração de milhões de seres humanos que são simplesmente descartáveis no sistema.
Por esta razão compreende-se a força histórica do desenvolvimentismo na sociedade brasileira. É possível entender também as razões do otimismo que dominou quase todo o segundo mandato do presidente Lula e o fato nada desprezível de que a hegemonia lograda em seu governo foi de tal ordem, que o sistema político partidário colapsou. De fato, nem mesmo com grande esforço é possível encontrar grandes diferenças entre os principais partidos políticos brasileiros naquilo que é essencial a manutenção da ordem. Esta homogeneização do sistema partidário expõe a fraqueza do liberalismo, pois na atual situação não há alternativas reais em termos eleitorais. Todos os gatos – pelo menos os grandes – são pardos! A ampla base de apoio parlamentar no congresso nacional, a união desinibida entre conservadores e liberais, a reconciliação de antigos adversários e a aliança entre empresários e trabalhadores revela, de maneira inequívoca, que o processo de acumulação de capital logra contemplar, além dos interesses dominantes, também, e ainda que em menor medida, as classes subalternas. Neste contexto, o desenvolvimentismo representa a ideologia necessária que molda os interesses em disputa, especialmente em sociedades marcadas pela abissal desigualdade que mesmo com políticas sociais, praticamente não cede.
A crise global do capitalismo iniciada em setembro de 2008 reforçou a ideologia desenvolvimentista na periferia do sistema. A demanda por matérias primas, a elevação do preço da terra e o endividamento estatal – manifesto na explosão da dívida pública interna – criaram mecanismos de acumulação apropriados as distintas frações do capital que terminou por moldar uma importante aliança de classe no país. Não seria a primeira vez que a crise global do sistema capitalista, cujo epicentro esta nos países centrais, permitiria um fôlego aos países periféricos. A experiência histórica revela de maneira clara que o impulso não será duradouro?
O anúncio recente sobre a taxa de crescimento do PIB, repetida com insistência pela totalidade dos meios de comunicação, é incapaz de indicar que o pacto de classe pode criar força suficiente para iniciar uma estratégia de superação do subdesenvolvimento; ao contrário, é precisamente este pacto que aprofunda as características mais nocivas de nossa formação social, especialmente claro em relação a dependência científica e tecnológica e a manutenção da super-exploração da força de trabalho. A pauta de exportação brasileira ilustra com perfeição a posição do país na divisão social do trabalho e é notório que o peso da empresas multinacionais segue crescendo na estrutura produtiva do país. O “alerta” de setores perdedores da indústria nacional e a pálida consciência liberal acerca dos perigos da “desindustrialização” expressa, na verdade, a incapacidade da burguesia brasileira em enfrentar o aprofundamento da dependência e do subdesenvolvimento. Na prática, a gritaria sobre o “retrocesso industrial” é apenas um subproduto do desenvolvimentismo, pois as frações de capital estão acumulando riqueza enquanto “reclamam”. A classe dominante divulga a fé no desenvolvimentismo enquanto ganha rios de dinheiro. Afinal, se estivéssemos diante de um acentuado processo de desindustrialização, como entender a timidez ou mesmo a passividade política dos empresários? É sintomático que as preocupações do empresariado se resumem em considerações inúteis sobre a “inadequada” valorização do cambio, a ameaça de retorno da inflação e a insistência sobre a necessidade de redução das despesas do governo. Todos ganham, sem dúvida, mas a hegemonia é financeira!
A imprensa forma a opinião de que a austeridade “voltou” com o corte de 50 bilhões no orçamento, como se, no período anterior, estivéssemos vivendo na fartura. DSiante do corte, os desenvolvimentistas apenas exibiram um sorriso amarelo enquanto a ameaça da inflação é o fantasma que mantém o povo sob chantagem e ao mesmo tempo assegura super-lucros aos empresários. A elevação das taxas de juro e o conseqüente “aperto” fiscal neste início de ano, além de reforçar a ideologia da austeridade, garante a remuneração dos títulos da dívida pública e implica em maior endividamento estatal; mas o dado relevante é que a medida reforça o controle da política econômica pelos rentistas. O governo anterior não poderia ter tomado estas medidas já necessárias antes da eleição, da mesma forma que a presidente Dilma não poderia adiá-las, caso contrário o pacto de classe explodiria. De resto, a oscilação entre medidas típicas do neoliberalismo com pitadas de ações pretensamente keynesianas, permite as forças que apóiam a presidente Dilma manter a ilusão de que o rumo do governo esta realmente em disputa – entre desenvolvimentistas e neoliberais – tal como afirmava Pedro Malam, ex-ministro da fazenda de FHC. Os defensores do governo se apresentam como se o governo vivesse um dilema faustiano (“duas almas lutam por meu ser”), insinuando a “existência de duas tendências no núcleo de poder associado ao presidente, uma de caráter neoliberal-fundamentalista e outra liberal-desenvolvimentista”, tal como um apologético defensor de FHC escreveu em 2001 para justificar a direitizaçao do sociólogo eleito presidente. Enquanto esta “disputa” é alimentada como meio para alimentar as paixões políticas na imaginação do povo, o pacto de classe estabelecido em 1994 nas entranhas do Plano Real se mantém intacto, ainda que com as fissuras tradicionais.
Enquanto persistam os efeitos destrutivos da crise global, o aumento da demanda pelas matérias primas e a conseqüente elevação de seu preço e a elevação das taxas de juros – alguns países da periferia seguirão fazendo de conta que estão imunes a turbulência global. Certamente será possível manter a certa estabilidade da moeda, programas sociais com alcance limitado, e um PIB eventualmente expressivo como o recentemente anunciado (7,5%). Mas é igualmente certo que a grande transformação que o país necessitaria para deixar de ser um gigante com pés de barro, se afasta cada dia mais, entre outras razoes, pelo “êxito” conjuntural dos dois últimos governos.
Janeiro de 2011.
Texto: Michel Goulart da Silva
Texto: Elaine Tavares
Texto: Elaine Tavares
Texto: Elaine Tavares
Texto: Elaine Tavares