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A Economia do Delírio: Quando os números substituem a verdade

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Por Alejandro Olmos Gaona em 10 de fevereiro de 2026

A Economia do Delírio: Quando os números substituem a verdade

Foto: Mídia Ninja CC

Em dezembro de 2023, a dívida pública total da Argentina chegava a US$ 370,664 bilhões. Longe de diminuir, e mesmo após bilhões terem sido pagos em juros e principal, em dezembro do ano seguinte, a dívida atingiu US$ 455,067 bilhões. Este é um exemplo de como o governo comunica e impõe sua vontade de exercer o poder.

O presidente Milei não governa apenas com decretos e medidas de austeridade: ele governa, sobretudo, com palavras, teorias desacreditadas e uma retórica violenta de constante acusação contra aqueles que discordam de suas políticas. Mas ele também se expressa particularmente por meio de números. Números grandiosos, excessivos, muitas vezes impossíveis de verificar e, em outros casos, simplesmente falsos. Em seu discurso repetitivo, os números não informam: intimidam. Não explicam: impõem. Ele não descreve a realidade; Ele substitui isso por uma narrativa épica onde aparece como o único baluarte contra o apocalipse, e isso é agravado pela multidão de bajuladores em seu governo que repetem seus excessos e falsidades como se fossem verdades reveladas.

Um exemplo claro foi a afirmação repetida de que, se ele não tivesse assumido o cargo, a Argentina teria sofrido uma inflação de 17.000%. Não há nenhuma estimativa remotamente crível na história econômica argentina — nem em cenários projetados por organizações oficiais ou privadas — que sustente tal número. Isso não é um erro técnico; é um exagero grotesco, lançado para gerar pânico retrospectivo e justificar qualquer sacrifício presente. A mensagem implícita era clara: tudo de ruim é preferível ao inferno que eu evitei. Curiosamente, esse número extremo foi o mesmo usado por José Alfredo Martínez de Hoz quando assumiu o Ministério da Economia e apresentou a situação na Argentina.

O mesmo se aplica à afirmação de que seu governo realizou “dez mil reformas estruturais”. O número não só carece de respaldo documental, como também torna sem sentido o próprio conceito de reforma estrutural. Uma reforma estrutural não é uma resolução administrativa, uma mudança no organograma ou um tuíte presidencial. Apresentar milhares de reformas inexistentes como uma conquista histórica é uma forma de mistificação: transformar marketing em política pública. Embora ele não se importe, pois sabe que sua mensagem retumbante é repetida pelas redes administradas por seus assessores e pelos jornalistas que lhe respondem.

Não é ideologia, são fatos

Outra contradição flagrante surge em relação à questão da dívida pública. Enquanto Milei afirma em discursos e entrevistas que a dívida “está diminuindo”, os próprios relatórios oficiais do Ministério da Economia mostram o contrário: a dívida total está aumentando, seja devido à capitalização de juros, a novos compromissos ou ao impacto da desvalorização sobre a dívida em moeda estrangeira.

Este não é um debate ideológico, mas sim uma questão de dados produzidos pelo próprio Estado que o Presidente afirma ter organizado. Aqui, a mentira não é uma interpretação: é uma negação dos próprios números. Em dezembro de 2023, a dívida pública totalizava US$ 370,664 bilhões. Longe de diminuir, e mesmo após bilhões em pagamentos de juros e principal, em dezembro do ano seguinte, a dívida havia atingido US$ 455,067 bilhões. Ou seja, um aumento líquido significativo sob uma administração que alega ter iniciado um processo de “reestruturação” e “redução da dívida”. Isso pode ser facilmente refutado com os números publicados no site do Ministério da Economia.

Os dados oficiais mostram que, somente em novembro, a dívida aumentou em US$ 3,784 bilhões e, em dezembro, subiu US$ 9,070 bilhões, contradizendo categoricamente a narrativa do presidente de que a dívida está diminuindo. A composição desse aumento também é reveladora: a dívida em moeda estrangeira cresceu US$ 10,865 bilhões. Quarenta e dois por cento da dívida em situação normal de pagamento é pagável em moeda local, enquanto os 58% restantes são pagos em moeda estrangeira. Apesar dos pagamentos da dívida que foram feitos, ela continua a crescer, uma realidade que o presidente nega, assim como o Ministro Caputo, que insiste que ela diminuiu.

E quanto aos juros acumulados?

Nem mesmo esses números refletem totalmente o verdadeiro peso que está se acumulando. O governo sistematicamente deixa de divulgar o volume de juros acumulados sobre os títulos de curto prazo e afirma que os emite regularmente para sustentar o sistema financeiro. Esses juros, embora ainda não pagos, constituem dívida efetiva: certas obrigações que devem ser cumpridas no futuro e que agravam o perfil de vencimento da dívida. Trata-se de uma forma de empréstimo diferido, invisível no discurso oficial, mas totalmente real em termos fiscais, que terá de ser paga, mesmo que disfarçada.

Cabe lembrar também que, no último refinanciamento da dívida, a dívida com taxas de juros próximas a 1% ao ano foi substituída por uma nova dívida com taxas em torno de 7,5%, o que implica um aumento substancial nos custos financeiros do Estado. Longe de “limpar” as finanças públicas, essa decisão aumentou estruturalmente o ônus do pagamento de juros sobre o orçamento futuro.
Eles não estão eliminando o déficit, estão apenas adiando-o.

A esses números que já mencionamos, devemos acrescentar um fato particularmente grave: durante o ano anterior, o Ministro da Economia, Luis Caputo, emitiu dívida em moeda local com taxas de juros de até 65% ao ano. Essas emissões, apresentadas como instrumentos para absorver pesos e evitar pressões inflacionárias, são na realidade uma bomba-relógio de juros que acumula juros mês após mês. O déficit não está sendo eliminado: está sendo adiado, transformando-se em um fardo financeiro crescente que compromete a sustentabilidade fiscal que eles tanto desejam preservar.

Assim, enquanto o discurso oficial celebra um suposto ajuste virtuoso e uma queda na dívida, os números reais mostram o oposto: mais dívida, mais juros, maior dependência de financiamento caro e opaco e contabilidade que omite deliberadamente os passivos que estão sendo gerados. Esta não é uma diferença de interpretação ideológica, mas uma contradição objetiva entre a narrativa e os próprios dados do governo. A verdade é simples e incontestável: a dívida não está diminuindo. Está sendo transformada, encarecida e ocultada. E toda dívida escondida hoje será paga amanhã, como sempre foi o caso.

A Pedagogia da Brutalidade

Essa forma de comunicação não é acidental. Milei não debate números: ele os usa como armas retóricas. Onde há complexidade, ele impõe o choque. Onde há nuances, ele grita absolutos. Onde há estatísticas, ele inventa magnitudes impossíveis. É uma pedagogia da brutalidade: repetir números enormes para que ninguém ouse questioná-los.

O problema não é apenas que Milei minta. O problema é que ele normaliza a mentira como método de governar. Quando o presidente diz algo, e o diz com convicção, o dano não é apenas econômico: é institucional, cultural, democrático. A própria ideia de verdade pública, de informação verificável, de prestação de contas é corroída. Os números do presidente nunca coincidem com as fontes oficiais, que, com exceção dos economistas, ninguém consulta.

Um país não se reconstrói com números falsos ou narrativas apocalípticas. A governança se baseia em dados verificáveis, honestidade intelectual e um mínimo de respeito pela inteligência da sociedade. Quando o poder precisa mentir para se justificar, ele demonstra não força ou convicção: demonstra fraqueza, improvisação e medo da verdade.

Uma Forma de Exercer o Poder

A distorção sistemática dos números não é uma anedota retórica ou um excesso de campanha transferido para o governo. É uma forma de exercer o poder. É a tentativa de substituir a realidade por um discurso único, onde todas as evidências que contradizem a versão oficial são desqualificadas, negadas ou simplesmente tornadas invisíveis. Onde os fatos não se encaixam, os números são inventados; onde os dados são inconvenientes, a ideologia é gritada.

Quando mentir se torna um método, deixa de ser um erro corrigível e se transforma em um projeto político: o projeto de convencer a sociedade de que nenhuma outra realidade é possível além daquela proclamada por aqueles que detêm o poder. Um projeto que busca normalizar o engano, anestesiar o pensamento crítico e reduzir a democracia a uma performance encenada onde a palavra do presidente substitui os fatos.

Mas a realidade não pode ser revogada com discursos, nem pode ser disciplinada com números falsos. Cedo ou tarde, os dados emergem, as consequências aparecem e as mentiras são pagas. E quando isso acontece, o custo não é arcado por quem mentiu do poder, mas por toda uma sociedade que foi deliberadamente enganada em nome de uma narrativa que desmorona diante da verdade.

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