"Crise humanitária" é provocada pelo capital

27 de Fevereiro de 2018, por Elaine Tavares


Quem conhece a história sabe: é prática usual dos Estados Unidos inventarem mentiras, e divulgá-las como verdade até à exaustão, para justificar seus ataques a povos e países. Em cada invasão há uma história mal contada. Em alguns casos, os governos dos EUA chegam a sacrificar seu próprio povo, como foi o caso do encouraçado USS Maine que explodiu misteriosamente, matando 354 militares, no porto de Havana, dando início a guerra dos EUA contra a Espanha em 1898, ou a explosão das Torres Gêmeas, em 2001, que matou mais de três mil pessoas e abriu caminho para a invasão do Afeganistão. Tudo isso para iniciar guerras e garantir que a roda do capital gire mais rápido, gerando lucros astronômicos para a indústria de armamentos, e expandindo o poder do império.

Agora, a bola da vez é a Venezuela. Desde que Hugo Chávez assumiu a presidência em 1998, os Estados Unidos vem tentando destruir a proposta bolivariana. Primeiro foi com o golpe clássico, dado em 2002, quando chegaram a tirar Chávez. Mas, com a ação da força popular, acabaram perdendo a parada. O jeito foi então inventar novas táticas para minar o governo e impedir que a vida se organizasse na paz. Chávez precisou enfrentar diversas eleições e referendos para pode governar, buscando na população, o respaldo necessário. Por fim, em 2012, os EUA conseguiram garantir a morte do presidente. 

Com o fim da vida de Chávez os Estados Unidos acreditaram que a batalha estava ganha. O petróleo voltaria para as mãos da elite local, que é serviçal do império, e tudo seguiria bem. Mas, não foi o que aconteceu. Nicolás Maduro venceu as eleições e seguiu implementando a forma bolivariana de governar, sempre amparado nas decisões populares. Muitos foram os esforços para derrocar Maduro. Financiou-se a direita local para a realização de protestos e atos violentos. Não funcionou. Em 2015 começou então mais um capítulo criminoso dos EUA contra o povo venezuelano: a chamada guerra econômica. 

Com a ajuda de boa parte do empresariado nacional, os Estados Unidos provocaram o desabastecimento do país, que é ainda muito dependente das importações. Como a direita empresarial é quem faz o trabalho de importação, os produtos começaram a sumir das prateleiras, estocados em lugares não sabidos, provocando filas gigantescas. Primeiros foram produtos como papel higiênico, pasta de dente, xampu. Depois passaram a esconder a comida, provocando a fome em todo o país. O governo reagiu criando mercados populares e novas formas de distribuição. Mas, não é fácil acabar com o controle do empresariado em tão pouco tempo. Assim, o processo ainda está em curso. A questão da comida vem sendo resolvida, ainda que as gentes sigam vivendo transtornos e filas para comprar os alimentos. Mas, outros problemas vão sendo criados. 

Como os produtos não faltam – eles estão apenas escondidos – surge o mercado paralelo, o contrabando e toda a sorte de maracutaias. Então, divulga-se que tem tal produto para vender em tal lugar, e isso provoca uma correria do povo. Aí vem a televisão, que é também dominada pelo empresariado aliado dos EUA, e mostra como o governo faz o povo sofrer. As imagens são vistas no mundo inteiro pelas sucursais do império e assim vai se solidificando a mentira. 

A verdade é outra. Quem está fazendo o povo sofrer é a elite empresarial de direita do próprio país, auxiliada pelo governo estadunidense. Claro que nesse pacote todo aparecem pessoas aproveitadoras, também no campo popular. Humanos. Mas, quem provoca o caos não é o governo.

Agora, a última do império é mostrar a saída dos venezuelanos em migração como uma “crise humanitária”. E o movimento das gentes, fugindo da desgraça que os empresários locais e os EUA estão criando, vira assunto mundial. As milhares de mortes na Síria não são importantes, o massacre do povo palestino não é crise humanitária. Mas a saída de alguns milhares de venezuelanos é. Interessante é que as migrações em massa que acontecem todos os anos em países como Guatemala, Panamá, El Salvador e México tampouco são crises humanitárias. Ninguém fala disso.

Mais do mesmo. Afinal, nós atravessamos a metade do século XX vendo e ouvindo notícias bem parecidas, com a saída de famílias cubanas da ilha de Cuba depois da revolução. É igual. Quando Cuba decidiu ser livre, quem foi que fugiu para Miami? Boa parte da classe média alta, os grãofinos, e outros, não tão bem colocados na pirâmide financeira, mas que não acreditaram que poderia ser possível viver de outra maneira. Foi uma fuga em massa. Mas a maioria ficou e construiu essa beleza que é Cuba.

Naqueles dias, os Estados Unidos também começaram uma guerra econômica, mas como a elite predadora havia fugido, não havia vende-pátrias dentro de Cuba para fazer o serviço sujo. A saída foi  criar o famoso “bloqueio econômico” que dura até hoje, não permitindo que outros países negociem com a ilha.

A ação contra a Venezuela é bem parecida com a que vem sendo sistematicamente feita com Cuba. A diferença é que a Venezuela não fez uma revolução clássica. Não exterminou a burguesia, não provocou a fuga em massa da elite local. Pelo contrário, essa gente segue ali, tentando recuperar o poder. A Venezuela resiste porque tem um governo que se ampara na maioria das gentes, aqueles e aquelas que acreditam na proposta bolivariana de democracia participativa, de soberania, e seguem defendendo esse modo de ser estado. Eles sabem bem o que é viver sob as botas dos ricos e do império. Não querem mais isso. Claro, pessoas há que não conseguem aguentar os sacrifícios aos quais acabam sendo submetidos pela luta. E vão embora. É um direito que têm. Por isso migram em busca do que acreditam que pode  ser uma vida melhor. 

Mas, é preciso ter a delicadeza de olhar para dentro da Venezuela, para os que ficam, para os que resistem e lutam. Porque eles não estão lá submetidos à escassez, à fome, a violência por culpa do governo, ou do Maduro. Eles estão enfrentando o império e todas as suas armações. Os Estados Unidos não querem um povo soberano na Venezuela. Eles querem uma gente submissa e um governo capacho. A batalha é desigual. E ainda assim as gentes seguem acreditando que é possível viver de forma diferente. Quem anda pelos bairros periféricos de Caracas, quem caminhas pelas estradas do interior, sabe: ali, ninguém quer dar passo atrás. 

E os que não acreditam na força da luta (poucos), buscam outros rumos, vão embora. 

A verdadeira crise humanitária que existe hoje no mundo é o capitalismo, que é predador, que é voraz, que é insaciável e que vai cobrando vidas e mais vidas em nome do lucro para muito poucos. 

Então, não se deixe enganar. Abra os olhos, estude a história e conheça a realidade que existe para além da manipulação midiática.