Ditadura na América Latina: rapinagem norte-americana

28 de Junho de 2017, por Coletivo Ofensiva Socialista

Arbenz - a memória vive no povo guatemalteco
Arbenz - a memória vive no povo guatemalteco

O escritor Eduardo Galeano chamou de rapinagem o que os europeus fizeram com as riquezas da América latina durante o período colonial, no qual todas as riquezas naturais do continente serviam aos interesses do capital estrangeiro. Para manter esse controle, espanhóis e portugueses, promoveram no continente americano um modelo econômico de dependência fundado em grandes oligarquias agrárias, escravistas e exportadoras.

No final do século XIX sob a máxima da doutrina Monroe “A América para os americanos”, os EUA passariam a exercer o papel que antes cabia às monarquias ibéricas. No começo do século XX, a construção do canal do Panamá (1904), a interferência em Cuba através da Emenda Platt (1902) e o envolvimento direto em vários momentos na revolução mexicana (1911) demonstravam o caráter imperialista dos EUA na América Latina.

Durante todo o século XX, os EUA estiveram envolvidos com as ditaduras na América Latina. O ódio anticomunista presente no discurso no presidente Harry Truman ou do senador Joseph Maccarthy acusando os soviéticos de ditadores, todo o maniqueísmo macarthista que opunha um ocidente paladino da democracia contra comunistas repressores não passa de retórica para justificar as próprias políticas autoritárias e a repressão a qualquer movimento contrário a exploração capitalista.

Os EUA foram durante todo século XX aliados e promotores de terríveis ditaduras na América Latina, financiaram todos os governos que garantiam seus interesses econômicos com o preço da miséria, da fome e da morte de milhões de seres humanos.

A história que nos é contada pelos filmes americanos e pela historiografia burguesa é uma narrativa épica da luta do bem contra o mal, dos liberais e democráticos contra a ditadura do leste europeu e da China. Não queremos aqui, de maneira alguma, defender o stalinismo e nem o maoismo, ou qualquer regime autoritário, mas mostrar a farsa dessa oposição entre Ocidente e Oriente durante a guerra fria que servia apenas para justificar o aumento da produção armamentista e ampliar o imperialismo, especialmente o americano.

OS EUA E AS DITADURAS NA AMÉRICA: APOIO ÀS VELHAS OLIGARQUIAS

Os EUA, ao implantar em 1902, uma cláusula na constituição de Cuba chamada de Emenda Platt, passava a ter direito de intervir militarmente, politicamente e economicamente no país. Entre outras coisas, os EUA passavam a controlar Guantánamo de forma perpétua, essa região serviu como campo de concentração onde os americanos levaram descendentes de japoneses durante a segunda guerra mundial. Os EUA, “terra da liberdade”, apoiaram Fulgêncio Batista, ditador que governou Cuba entre 1933 e 1958. O tirano cubano mantinha ótimas relações com a máfia americana que fazia de Havana um enorme cassino. Batista entregou todas as riquezas do país a empresas privadas norte americanas. Diferentemente da época de Fidel Castro, em momento algum da ditadura de Fulgêncio Batista foi feito embargo, restrição ou críticas ao despotismo do presidente, nenhum presidente americano pensou em garantir a democracia na ilha.

Na Nicarágua, os EUA sempre apoiaram os Somoza, desde Somoza Garcia, que de 1936 a 1956 governou o país eliminando a oposição, tendo, inclusive, executado o general Sandino e seus simpatizantes. Somoza Garcia, respeitado pelos capitalistas americanos, se tornou um dos homens mais ricos da América exportando café e carne bovina e se aproveitando da Segunda Guerra Mundial para oprimir os descendentes de alemães, os obrigando a vender suas terras a preços baixíssimos e determinados por ele mesmo.

Com a ascensão do movimento sandinista nos anos 70 e 80, a Nicarágua viria revelar a todo o público a “ética” do governo norte-americano quando o governo Reagan para tentar impedir a vitória do sandinista Daniel Ortega em 1986 utilizou dinheiro de armas vendidas ao Irã para financiar os reacionário na Nicarágua, vale lembrar que o Irã estava em guerra contra os EUA, o que não impedia o lucrativo negócio do tráfico de armas para formação de caixa 2. O episódio ficou conhecido como Irã-contras.

Na República Dominicana, o aliado norte americano foi o ditador Rafael Trujillo. Este ficou mais de trinta anos no poder deixando um saldo de milhares de mortes. O regime de Trujillo matava opositores em plena luz do dia e até exilados em outros países. O ditador que governou o país entre 1930 a 1961 chegou a ser dono de mais de 70% das terras agricultáveis do país. Sobre ele, o diplomata e secretário norte-americano Cordell Hull teria confidenciado ao presidente Roosevelt “ele é um filho da puta, mas é o nosso filho da puta”.

Em comum a todas essas ditaduras, não há apenas o apoio dos EUA, mas seus golpistas pertencerem às oligarquias agrárias e se beneficiarem com uma economia de exportação de matérias-primas e uma estrutura agrária baseada no latifúndio e na monocultura. A dependência e o modelo econômico que promove a ruína de milhões condenados à miséria é a razão do poder e da riqueza dos grupos econômicos e políticos reacionários que tomaram o poder contando com uma postura beneplácita de presidentes dos EUA e de empresários americanos a quem essas ditaduras interessavam.

INTERVENÇÃO DA CIA NA AMÉRICA LATINA

A primeira ditadura da América Latina a contar com a intervenção direta da CIA foi a da Guatemala em 1954. O governo de Jabobo Arbenz promoveu algumas reformas de caráter nacionalista que, no máximo, modernizariam e aumentariam as relações de produção no país, diminuindo a quantidade de terras ociosas. Arbenz, conhecido como o suíço, estava longe de ser um comunista, sua reforma era meramente nacionalista. Essa reforma agrária tímida de Arbenz, entretanto, iria contra os interesses imperialistas da United Fruit Company, empresa norte americana que exportava frutas tropicais, na Guatemala, principalmente se produzia bananas e abacaxis para exportação. Para evitar que a Guatemala se tornasse uma praia soviética, como sugeriu o diretor da CIA Allen Dules, e impedir que o seu negócio de exportação de frutas fosse prejudicado, os EUA promoveram um Golpe de Estado e implantaram uma ditadura no país. Os sucessivos governos militares para garantirem os lucros americanos com bananas e abacaxis foram responsáveis pela morte de 140 mil pessoas, ativistas dos direitos humanos falam até em 250 mil.

AS DITADURAS NA AMÉRICA DO SUL

Depois do período do populismo em que a conciliação de classes e o Estado como impulsionador do capitalismo foram a alternativa do capital à crise de 1929, a América do Sul viveu um curtíssimo período democrático que logo em seguida daria lugar a uma série de ditaduras com apoio direto dos EUA e intervenção da CIA. A primeira ditadura desse período foi a do Paraguai em 1954, com Alfredo Stroessner derrubando a força Federico Chávez, político populista contrário ao FMI. Stroessner foi eleito através da fraude. A eleição do ditador paraguaio aconteceu impedindo a existência de oposição no pleito. Uma vez no poder todos os partidos foram fechados e apenas o colorado lançava candidato a presidente, não por coincidência, sempre Stroessner era o escolhido, assim, como candidato único e em eleições aonde chegava a ter 99,9% dos votos, Stroessner ficaria no poder até 1989. Stroessner pela repressão aos comunistas e sua política entreguista e subserviente, contou sempre com o apoio militar, econômico e político dos EUA.

Com a vitória da revolução cubana em 1959, os EUA apertaram o cerco sobre a América. Era preciso reprimir ainda mais os trabalhadores, o trabalho duro dos latinos, a mais-valia absoluta, a apropriação da matéria-prima e todas as práticas imperialistas precisavam ser mantidas a qualquer custo. Uma nova Cuba não podia acontecer de maneira alguma.

Para essa missão o imperialismo yankee não mediu esforços e nem vacilou, em 1946 já havia criado a Escola das Américas, cujo objetivo era formar militares golpistas e ditadores. A agência secreta americana estava presente em todos os governos, infiltrada em vários movimentos sociais. Em 1961, com o argumento de construir uma cooperação para desenvolver a América Latina e combater o comunismo é criada a Aliança Para o Progresso, cujo real objetivo era controlar de perto possíveis movimentos revolucionários ou qualquer ação dos trabalhadores que contrariassem os interesses do capitalismo americano e internacional.

Em 1964 duas ditaduras na América do Sul tiveram intervenção direta das forças armadas e do governo norte americano: Brasil e Bolívia. Nos dois casos os governos passam a adotar políticas privatizantes, retirar direitos trabalhistas, proibir as greves, criminalizar os comunistas e receber empresas estrangeiras interessadas em uma mão de obra barata e que trabalhava sob o “tacão de ferro” dos militares. As tentativas de resistência dos mineiros e operários bolivianos, das ligas camponesas e trabalhadores no Brasil foram reprimidas com prisões ilegais, torturas, assassinatos e todo tipo de crueldade. Em 1967, na Guerrilha de Ñancahuazú que tentava libertar a Bolívia da ditadura, foi morto o revolucionário argentino Ernesto Che Chevara pelas forças da CIA.

Em 1966, começaria a ditadura militar Argentina. Assim como no Brasil, a ditadura na Argentina foi apresentada como uma grande revolução democrática. Com a ajuda dos EUA e de várias empresas americanas, argentinas e transnacionais. Entre 1966 e 1983 o país virou um verdadeiro inferno para quem se opusesse a política pró-americana e liberal dos ditadores. Vários comunistas foram jogados vivos de aviões no mar, 340 campos de concentração foram criados onde trabalhadores “subversivos” eram castigados e condenados a escravidão, cerca de 9 mil pessoas foram mortas e outras 20 mil desapareceram, deixando filhos órfãos, pais e mães desesperados. Como se não bastasse mais de 500 bebês foram retirados dos seus pais “subversivos” para ser entregues a militares e então receberem uma educação “de bem”. A linha dura foi a característica principal das ditaduras nos anos 70, seja no governo de Jorge Rafael Vidella na Argentina ou do general Médici no Brasil. As justificativas para os golpes militares eram as mesmas: ameaça comunista, imoralidade, corrupção, defesa da democracia contra a ditadura soviética e chinesa etc. A verdade é que todas as tentativas de conquistas mínimas para os trabalhadores na América do Sul podiam atingir os lucros das grandes empresas americanas e dos latifundiários locais. O pacto entre as burguesias latinas e as empresas estrangeiras, entre burguesias nacionais entreguistas e o governo americano era para exterminar qualquer possibilidade de mudança do ciclo do mesmo e garantir que os trabalhadores continuassem a assumir papel de pária na divisão internacional do trabalho.

O que aconteceria se os trabalhadores do campo se rebelassem contra os latifundiários e entendessem que como camponeses são os legítimos donos das terras? Quem teria mais direito às terras do que os indígenas e aqueles que nela trabalham e dela vivem? No Peru, em 1963, um grande movimento chamado “Tierra o Muerte”, que contou com mais de 300 mil comuneiros, pensou exatamente assim. Os camponeses passaram então a ocupar as terras que lhes fora tomada pelos latifundiários, inclusive, terras produtivas, questionando o latifúndio conquistado pelo extermínio em massa promovido pela invasão espanhola. A ameaça comunista e a desordem pública causada pelos terroristas do campo foram os argumentos para o golpe militar no Peru em 1968. O ditador Velasco Alvaredo foi o nome ideal para servir ao capital dos EUA satisfazendo sua vontade de transformar a terra em lucro para alguns e fome para a maioria.

Em 1973, o Uruguai e o Chile sofreriam com os golpes orquestrados pela burguesia nacional e internacional. No primeiro caso a ditadura seria a única forma de impedir a ameaça representada pelo Movimento de Liberação Nacional – Tupamaros (MLN-T), a verdade é que a partir da ditadura, a esquerda uruguaia foi complemente dizimada. O país que em 1973 organizou a maior greve geral da sua história passaria a viver anos de extrema repressão aos trabalhadores. No caso chileno, o presidente Allende, com apoio da unidade popular (grupo formado por vários partidos de esquerda), tentava aplicar algumas reformas no intuito de diminuir a extrema desigualdade do país, Allende foi eleito, não era um revolucionário, mas um social democrata. O golpe que colocou o general Augusto Pinochet no poder por sete anos deixava clara a intenção dos empresários e governos que o orquestraram. A ditadura chilena aplicou o neoliberalismo, aliou-se totalmente aos EUA e Inglaterra, fez reformas privatizantes na educação e na previdência, ajudou a trazer empresas transnacionais que recebiam várias benesses e isenções fiscais, enquanto os trabalhadores sentiam o arrocho salarial e a caristia. Para manter as empresas estrangeiras e a elite chilena mais reacionária lucrando muito, o governo utilizou de toda forma de violência, chegando a prender pessoas em estádios de futebol e promover milhares de fuzilamentos.

Com o governo Gorbatchev deixando clara sua intenção de acabar com a URSS e abrir as portas para o capitalismo, o discurso da ameaça comunista perdeu fôlego. Mais do que isso, os governos militares não eram mais necessários, depois de décadas de perseguição e desarticulação da esquerda latina, a democracia burguesa era, agora, uma via segura.

Uma esquerda reformista que concentra suas forças na via eleitoral e aceita governar dentro dos limites do consenso de Washington não representa nenhuma ameaça ao capital. Dentro do estado de direito, a burguesia passou a manter o seu poder através de governos eleitos, seja com compra de votos, ou com todo o seu aparato midiático. As várias instituições da burguesia como a OEA e a ONU, os bancos internacionais passaram a considerar como legítimo ou não um governo, de acordo com os seus critérios, ou seja, todos os presidentes para ter sua legitimidade reconhecida internacionalmente precisariam da aprovação de uma série de instituições. Para conseguirem essa chancela das instituições capitalistas os governos precisam aplicar todo o receituário neoliberal, mesmo que para isso tenham que usar a violência contra os trabalhadores, esse expediente foi utilizado seja por um intelectual liberal como Fernando Henrique Cardoso, ou por um ditador como Alberto Fujimori, de Carlos Menen, mais a direita, a Hugo Chávez, a esquerda; o imperialismo norte-americano, as burguesias nacionais  e os grandes grupos capitalistas internacionais continuam a espremer toda a riqueza da América latina, os trabalhadores continuam a trabalhar para aumentar a riqueza dos outros ao tempo em que ampliam a própria miséria. A única alternativa possível é a construção do socialismo em toda a América latina, nos marcos do capitalismo jamais houve qualquer perspectiva para os latino-americanos que não fosse o trabalho escravo, a miséria e a exploração total. É preciso construir um movimento de ofensiva socialista que rompa com o reformismo e os falaciosos e enfadonhos discursos eleitoreiros, todos os governos são da burguesia, é mais do que urgente pensar para além do capital para a América latina e para os trabalhadores de todo mundo.