Duas mil voltas buscando filhos e filhas

11 de Agosto de 2016, por Elaine Tavares


Era o mês de abril de 1977, plena ditadura militar na Argentina. Uma das mais violentas, ceifadora de mais de 30 mil vidas. Naqueles dias, algumas mães de desaparecidos pediam audiência ao ditador Jorge Rafael Videla. Queriam saber para onde tinham sido levados seus filhos e filhas, arrancados de casa, da escola, do trabalho e nunca mais vistos. Eram mulheres comuns, donas-de-casa, sem envolvimento com a política. Apenas buscavam aqueles que amavam. Assim, 
14 delas se reuniram na Praça de Maio, bem em frente ao palácio do governo, a Casa Rosada. 

Naqueles dias também estavam proibidas todas as reuniões que agrupassem mais de três pessoas. Ainda assim, as mães insistiram em se postar em frente à sede do governo, toda sexta-feira, burlando a segurança e furando os bloqueios. Usavam lenços brancos na cabeça e ficavam ali, silenciosas, esperando uma resposta. Pouco a pouco, aquela imagem passou a fazer parte do cotidiano da Praça e elas passaram a ser conhecidas como as “loucas da Praça de Maio”. Silenciosamente, elas decidiram completar uma volta em torno da histórica praça e aquela manifestação pacífica e singela foi tomando corpo, até que elas deixaram de ser as loucas, para serem as “mães”. O mundo inteiro começou a saber o que se passava na Argentina e elas se transformaram num símbolo da luta pelo fim do regime militar. 

Pois nessa sexta-feira, as Mães da Praça de Maio completarão sua volta número 2.000 ao redor da praça, em Buenos Aires. A ditadura acabou em 1983, mas elas seguiram lutando por memória, verdade e justiça. Nunca deixaram de marchar e hoje, passado tanto tempo, voltam a sofrer perseguições por parte do governo de Maurício Macri. Há poucos dias, uma das mães, Hebe de Bonafini, foi intimada a comparecer diante de um juiz por conta de denúncias sobre supostas fraudes em projetos de moradia popular que a Fundação das Mães coordenou durante o governo de Cristina Kirchner. 
 
Chamando para essa histórica volta de número 2.000, Hebe de Bonafini conclamou o povo argentino: “É a história que marcha sem se deter, são nossos pés gastos que não descansam, são nossos trinta mil filhos que semearam com seu sangue o amor à pátria, que somos todos”.

Esta será uma sexta-feira especial, na qual toda a América Latina, unida no desejo de justiça, estará participando. Se não corporalmente em Buenos Aires, mas no coração.

Que vivam as corajosas mães da Praça de Maio. Sua lição de resistência é exemplo para o mundo.