Educação e o soco na cara

22 de Agosto de 2017, por Sandro Livramento

Professora Márcia
Professora Márcia

“Se eu tiver que ser voz do magistério brasileiro, que está muito abandonado, eu vou ser. Inclusive a mídia está nos abandonando, a sociedade, o governo, as famílias. Todos têm culpa. Todos ajudaram a deixar meu olho roxo.” (profª. Márcia Friggi ao Notícias do Dia)

O que as “reformas” atuais, como a reforma do ensino médio, a reforma trabalhista, tem a ver com a agressão contra a professora Márcia Friggi?

Resposta: Tudo!

A professora Márcia Friggi não é a única e nem será a última (infelizmente) a ser agredida por um aluno descontrolado e desamparado.

As marcas da agressão, um olho roxo e um corte profundo no supercílio são certamente doloridas e nos deixam tristes e perplexos. Solidariedade, professora! Nosso total apoio e acolhida a sua dor e a sua luta. Ela é nossa também.

Mas é preciso voltar lá atrás e entender que esse soco foi dado muito antes. Também é preciso entender que a mão do garoto que proferiu tal soco é conduzida a fazer tal ato. Como assim?

Ora não sejamos ingênuos. O atual estado da educação brasileira é um projeto das classes dominantes e da elite política. Ao sermos abandonados e cotidianamente desrespeitados pelos governantes, pelos políticos e pela justiça, somos expostos a todo e qualquer tipo de violência. Assim, o soco na cara de uma indefesa professora, mulher, é na verdade a tradução desse desrespeito simbolizado por baixos salários (uns dos motivos pelos quais, provavelmente, a professora dava aula no EJA como ACT (Admitido em Caráter Temporário), jornadas desumanas, falta de estrutura nas escolas, falta de apoio pedagógico, falta de condições mínimas de fazer o mínimo trabalho pedagógico com uma mínima qualidade.

O soco vem sendo dado há muitos anos. Por todas as esferas da sociedade, inclusive muitos setores da esquerda que abandonaram esse espaço de luta. Por todos os agentes políticos, inclusive sindicatos que esqueceram as bases e apontaram seus projetos para outros horizontes.

Para quem torce o nariz para essas pequenas verdades, um conselho: você também sustenta essa violência contra os trabalhadores da educação quando paga para não se incomodar, quando escolhe calar na esfera privada os descasos acumulados por péssimos salários pagos aos professores dos seus filhos (sim, péssimos!).

Na outra ponta, o adolescente. Sem limite, sem noção nenhuma de espaço ou esfera pública, vítima da injustiça cotidiana dos estados e das elites. Filho de uma estrutura familiar sufocada por jornadas de trabalhos insanas, onde os pais não podem acompanhar seus filhos nas escolas ou em reuniões pedagógicas. Onde mães e pais são obrigados a fazer dupla ou tripla jornada para sustentar suas famílias. As escolas acabam virando depósito de gente, de indivíduos, de coisas. Imagine você as condições de um pai ou uma mãe, depois de mais de 8 horas de trabalho (talvez mais!), chegar a casa e fazer a lição, conversar com seu filho ou ir à escola dele?

Mas tudo isso vai ficar muito pior. As reformas do ensino médio, trabalhistas, as leis insanas (como a lei da mordaça e das terceirizações), vão empurrar cada vez mais esses sujeitos (professores e alunos) para o gueto da sociedade. Olhos roxos e supercílios abertos já são rotinas, se tornaram conteúdo. Tais “reformas” são vetores de mais violência, de mais confronto. Vão esvaziar qualquer possibilidade de educação de dialogo e transformar esses sujeitos em personagem de um teatro de horror. Logo não serão socos, será a morte!

Tudo isso alimentado por governos e elite que abandonaram um projeto de sociedade justa. Que apostaram na mercantilização da educação. Que apostaram em leis inócuas como a lei do piso, que garante tudo e nos dá nada. Que obriga centenas de milhares (maior categoria do serviço público) a precarização de sua profissão. Que aposta em uma escola vazia de sentido e voltada para o lado pragmático do deus do mercado.

Vale lembrar um episódio vivido por um grupo de professores de uma escola estadual no sul da ilha: um procurador do estado ao ser confortado por denúncia das péssimas condições de trabalho e estudo vividas ali naquele local (ele estava na escola), disse com todas as letras: “Vocês podem dar aula até debaixo de árvores, o problema não é nosso!” Se o ministério público estadual tem esse cara como responsável pela fiscalização das ações do estado na educação pública, por que estranhar nesse soco?

O soco em Márcia e a atitude do adolescente é a síntese do que é o projeto de educação das elites e dos seus representantes (governos): um sucesso! Sim, sucesso. Porque o nosso fracasso é o sucesso deles. Cada menino e menina que eles colocam para rua da escola ou atrasam sua formação é mais um trabalhador precarizado e pronto para ser explorado por qualquer mísero centavo. Ou vai alimentar as estatísticas de violência e justificar as ações do estado policial que só engorda mais e mais as empresas. Ou será cooptado por grupos fundamentalistas evangélicos que farão sua cabecinha: dizer não ao estado laico, as liberdades religiosas, a questão de gênero, etc.

Sucesso porque este projeto impossibilita a luta de classe. Joga professores contra alunos e suas famílias, sociedade contra professores e contra essas famílias. Massacra trabalhadores fazendo trabalhar até a morte. Em tripla jornada, sem descanso, sem folga e com todo tipo de ameaça no horizonte.

Sim as “reformas”, as leis da mordaça e terceirização têm muito a ver com o soco recebido pela professora Márcia. Tem tudo a ver com a forma violenta de “dialogar” do adolescente.

Na voz dela uma sentença:

“Eu fiz o boletim de ocorrência, o que eu tinha que fazer, eu fiz. O resto, a vida vai se encarregar. A vida vai ser bem mais rude com ele do que eu fui. Eu não tenho nada a dizer para esse rapaz, o que eu queria dizer para ele era dentro da sala de aula, mas ele não quis escutar como aluno. Eu só tenho a dizer para os meus bons alunos, que são respeitosos, que respeitam seus pais, que são solidários a mim. A eles, sim, eu tenho muitas coisas bonitas a dizer.” (profª. Márcia Friggi ao DC)

O problema é que ele logo estará em uma esquina te esperando caro leitor, para mais um soco no teu olho. Assim, esse problema é teu. Tua simples solidariedade é inútil. Tua indignação deve voltar-se para aqueles que propositalmente fizeram desse projeto de educação pública e das “reformas” as suas armas para calar e sufocar a classe trabalhadora.

É preciso encerrar esse texto dizendo: a luta é de classe e o espaço da escola e da educação é o espaço do exercício dessa luta. Ao negá-lo, ao negligenciá-lo, matamos a luta e nos aliamos aos desígnios e desejos de um projeto que não é o nosso e sim da burguesia.

À professora Márcia Friggi a nossa solidariedade de classe.

Ao menino e aos meninos e meninas, dizer que essa professora e a educação é a melhor chance deles não levarem mais um soco da vida. Que somente nossa solidariedade, nosso fazer vai construir outro projeto de sociedade que não passa pela mercantilização da vida!