Equador: ¿El pasado no volverá?

4 de Agosto de 2017, por Elaine Santos

Manifestantes em apoio a Jorge Glas
Manifestantes em apoio a Jorge Glas
 
Jorge Glas, vice-presidente do Equador tem suas funções retiradas no governo de Lenín Moreno gerando um desconforto dentro do Aliança Pais.
 
Desde 2006, quando Correa fora eleito juntamente com seu partido Alianza País governou um Equador que acabara de sair da instabilidade política assolada na década de 1990, quando três presidentes foram derrubados sucessivamente. Abdalá Bucaram, em 1997, que declarou incapacidade mental para exercer as funções do cargo. Jamil Mahuad– levou o país a bancarrota no período em que esteve no governo (agosto de 1997 a janeiro de 2000). Ele foi deposto depois de uma turbulenta onda de manifestações lideradas pelos indígenas da CONAIE (Confederação das Nacionalidades Indígenas do Equador) e em 2014 foi condenado pelos crimes de desvio de fundo público, bem como por levar o Equador a pior crise de sua história. Por fim, Lucio Gutiérrez, que foi presidente no período de 2003 a 2005 e chegou ao poder como possibilidade de haver finalmente uma representação indígena.
 
Todavia, com a dolarização da economia e a pouca atenção dada aos setores da classe média (1) , perdeu apoio. Esses setores, segundo Pachano (2012) surgiram da radicalidade light e perda de privilégios conquistados anteriormente, logo esqueceram-se do racismo e foram às ruas apoiando os indígenas a favor da saída de Gutiérrez, que foi destituído. 
 
Foi desta conjuntura, aqui sintetizada, que se ergueu Rafael Correa e o Alianza País. Desde 2007, quando eleito, Correa foi muito elogiado por ter renegociado a dívida externa e conseguido com isso custear reformas importantes no Equador. Todavia não ficou muito tempos longe dos empréstimos do FMI. Em julho de 2013 o FMI outorgava um novo empréstimo ao governo de Correa e, em julho 2016, o Fundo Monetário Internacional emprestou repetidamente, USD 364 milhões ao Equador (2)  como crédito internacional. Em abril de 2016 (3) o governo já havia realizado um novo pedido de linha de crédito ao FMI justificado a partir da catástrofe do terremoto que deixou ao menos 674 mortos. O fracasso da Iniciativa ITT Yasuní, que objetivava manter o petróleo amazônico debaixo da terra caso os países centrais pagassem tributos ao Equador, também levou ao pedido de empréstimos internacionais (4) . 
 
Assim sendo, as reformas políticas realizadas por Correa estiveram sempre circunscritas nos parâmetros de uma cidadania liberal, um chamado à refundação do Estado, e também a certo disciplinamento dos movimentos sociais, que durante este período, ao protestarem, foram por diversas vezes criminalizados. O sistema político foi reformado sem que houvesse qualquer tocadela na estrutura econômico, característica central da esquerda latino-americana da última década, centrada no melhorismo e no politicismo de suas agendas. Quando o imperialismo ainda vigora, negligenciar este entrave é colocar as conquistas da população em areia movediça, ou seja, vai afundar, mas demora algum tempo. 
 
Em 2012, guardada as verossimilhanças com o caso brasileiro (5),  Correa já assinalava as complexidades de realizar um governo que pintava com verniz vermelho o veneno e impedia que eles fossem verdadeiramente combatidos. Com um desenvolvimento ainda mais tardio que o brasileiro e mesmo com críticas os últimos dez anos no Equador, governado por Correa, apresentaram períodos de melhoria social substancial. E, nos últimos anos, o que aparentava ser uma vitória das lutas acumuladas foi se mostrando contraditório com a dependência petrolífera e o caráter extrativista do país. Correa terminou seu mandato com grande aprovação, mas evidentemente que a população equatoriana percebeu que apesar das melhorias oriundas do período de alta dos preços do petróleo no mercado internacional, tais benesses não se manteriam por muito tempo. Tal compreensão crítica levou muita gente às ruas em 2015 e em 2017 a desaprovação do governo já aparecia como uma recusa ao seu sucessor Lenín Moreno, que apesar disso saiu vitorioso em uma conturbada eleição no segundo turno. 
 
Em seu plano de trabalho Moreno enfatizou que o Equador foi o país que mais fez uso da riqueza petroleira no combate a pobreza, no âmbito energético afirmou a continuidade na construção de oito usinas hidrelétricas e a geração de novas indústrias e empregos por meio de tais construções. No que tange a Revolução Ecológica está previsto firmar novos acordos que permitam combater a pobreza de maneira sustentável e inteligente utilizando o património natural de forma a ter um equilíbrio ecológico. Sair da dependência dos recursos petrolíferos por meio da dinamização da indústria siderúrgica e seus aportes também faz parte da sua pauta discursiva 
 
Posto isto, vamos a Espada de Dâmocles (6). A crise financeira que assola o mundo todo em vários níveis e os baixos preços das matérias primas acabam por debilitar a economia e fazer que com muitos governos latino-americanos percam o apoio da população. O que conseguimos até agora foi uma revolução capitalista facultada pelos dominantes. Nenhum dos governos progressistas na América Latina, respeitada a importância de suas reformas, conseguiu qualquer controle ou reversão do capital financeiro, principalmente sob a égide da marcha célere imperial hegemónica.
 
Ao contrário, fomos sim parceiros na nossa condição de subalternidade, na nossa posição mais ou menos crítica, mais ou menos de esquerda e até uma leitura vulgarizada da crítica latino-americana. Sabemos que a história não dá passo atrás – el pasado no volverá. Como tragédia ou como farsa acompanharemos como Moreno governará neste capitalismo inacabado e no desenrolar contrarrevolucionário vivido no cone sul em todos os sentidos e que, como é óbvio, também é movido por forças imperialistas contrárias à quaisquer emancipações políticas e económicas em nossa pátria grande. E isto já está se expondo, considerando as farpas trocadas entre Moreno e Correa por meio das redes sociais. Além disto, no dia 01 de agosto, Moreno falou abertamente do endividamento deixado pelo governo anterior e a possibilidade de ter que fazer algumas reformas para fechar as contas. Afirmou:
 
Nunca promoveremos paquetazos, como los responsables de esta situación pretenden vaticinar maliciosamente. Ahora sabemos que, no solo se gastó en demasía, sino que nos endeudaron. Si seguimos por la misma senda, hipotecaremos el futuro del país (7). 
Cabe ressaltar ainda que Moreno manteve no poder a mesma equipe económica do governo anterior. Atualmente morando na Bélgica, o ex-presidente do Equador, Rafael Correa, passou a última semana nas redes sociais criticando de forma direta o imbróglio criado desde que Jorge Glas, atual vice-ministro, apareceu em uma lista da Odebrecht que o relacionava a casos de corrupção. Na quinta-feira (03), Lenín Moreno, por meio de decreto, retirou as funções do vice-presidente, algo que aparentemente tem agradado os setores da direita. Correa, em sua conta no Twitter, comparou o início da gestão Lenín ao Brasil e criticou sua relação com Bucarán, o empresário que governou o país durante seis meses.
 
Su objetivo inmediato: destituir por cualquier medio al vicepresidente Jorge Glas, al mayor estorbo en sus ambiciones. El libreto es el de Brasil.
Correa também defendeu um concurso para o Conselho de Participação Cidadã e Controle Social (CPCCS) cuja composição atual parece envolver a família de Bucarán em uma partidocracia que dividiria o país e traria Bucarán novamente ao governo em troca de empresas de energia elétrica, algo que constava no áudio que vazou. Glas, em nota à imprensa disse que sua saída do governo é uma estratégia para que se assentem as bases de um Estado corrupto no Equador que intenta levar a população acreditar que durante esta última década de Revolução Cidadã o país se endividou e agora estaria em situação economicamente complicada.
 
Diferentemente do que ocorre atualmente no Brasil, a população equatoriana e simpatizantes de Jorge Glas, quando dado o afastamento de suas funções, se organizou para ir imediatamente às ruas em defesa do vice-presidente e uma hora depois já se concentravam na praça grande. Entretanto, é importante ressaltar que a comparação com o Brasil por parte de Correa não é desatinada, há uma lógica do capitalismo colonial que se estende pelos países da América Latina, fato que já foi profundamente discutido pelo Vladmir Lenín, o russo, no capitalismo internacionalizado, com menos fronteiras e mais liberdade para o capital, e pelo sociólogo equatoriano Agustín Cueva, que reaparece como uma tentativa de nos reestabelecer a possibilidade de uma crítica radical à esquerda dos melhorismos e isolada dos desafios históricos querendo salvar-se no capitalismo.
 
Notas 

1  - Este foi um movimento mais urbano que ficou conhecido como “Rebelião dos Foragidos”. 

2  - http://www.elcomercio.com/actualidad/fmi-credito-emergencia-terremoto-ec...  Acedido em 20/12/2016

3  - Informação disponível na página do Fundo Monetário Internacional.
https://www.imf.org/es/News/Articles/2016/07/21/18/20/NA070816-Ecuador-G... Acedido em 20/06/2017

4 -  A ideia da compensação financeira pela não poluição no Equador e no mundo não foi bem-sucedida devido a crise em âmbito global. Tal situação fez com que muitos países se negassem a comprometer sua economia em nome da natureza e do clima. http://www.obela.org/node/1688  Acedido em 10/11/2015

5  -  Refiro-me ao fato que durante o governo Lula e Dilma os bancos lucraram vultuosamente superando seus antecessores. 

6 -  A espada que Dâmocles descobriu acima de sua cabeça ao ocupar o lugar do rei Dionysius e logo perdeu a vontade de ocupar aquele lugar. A representação da insegurança daqueles com grande poder e quem podem perdê-lo. A espada no caso desse artigo se denomina capital monopolista. 

7 - Notícia publicada em 31 de Julho de 2017 em http://www.eltelegrafo.com.ec/noticias/politica/2/presidente-pide-ayuda-...  - (www.eltelegrafo.com.ec

 
Referências