O Desesperado Crítico Narcisista Que Tem Raiva do Cinema Brasileiro Porque Nunca Pegou na Câmera Para Filmar

10 de Dezembro de 2018, por Waldo Matos Martins


Intitulado Quebra Cabeça do Cinema Novo, editora Galpão de Ideias Leonel Brizola, este livro de Gilberto Felisberto Vasconcellos é de um derrotado, fracassado, que aborda a cultura brasileira dos últimos cinqüenta anos tomando como referência o Cinema Novo. Este surge como se fosse um bolo de aniversário, algo íntimo que coloca sua vida na roda com abordagem opiniática - isso é bom, isso deixa a desejar, isso não presta. Embora nunca ele tivesse participado desse movimento cinematográfico. Viu e estudou os filmes, mais nada. Não viveu, não ousou fazer cinema, ficou como espectador, um fofoqueiro. 

Trata-se de um crítico judicativo que menos aprecia os filmes do que os julga. É mais política do que estética. O critério de julgamento ora se dá pelo prisma marxista, ora nacionalista, ora regionalista. Por todos os ângulos o que sobressai é a ideia do cinema como reflexo da realidade, mimese do real. O que nele está embutido é a reflexão de Pasolini segundo a qual a realidade é mais importante do que a verdade.

Esclareça-se que o marxismo não tem nada a ver com o Partido Comunista. Admirador de Leon Trotski, o autor assinala que a grande desgraça do século do cinema foi a burocracia stalinista que perseguiu Eisenstein e matou Maiakovski.

Gilberto Felisberto Vasconcellos com sua escrita nevrosíaca sempre à beira de um cataclismo interdisciplinar, eivado de iracúndia, atirando para todos os lados, cuja linguagem não é nunca linear, está longe de acreditar nas benfeitorias do capital, sobretudo do chamado investimento estrangeiro. Ele tem fobia de Stalin, e o que este fez de mal para a América Latina depois de 1924 quando da morte de Lênin, dizem que envenenado. 

Um de seus gurus e objeto de análise deste livro maluco, esquizofrênico e paranóico, é o crítico marxista Walter da Silveira que fundou em Salvador, finais dos anos 50, um magnífico Clube de Cinema, no qual passavam todos os filmes do mundo, sem o qual não existiriam os cineastas baianos Glauber Rocha e Roberto Pires. Absolutamente nada, segundo Gilberto Felisberto Vasconcellos, se lhe compara em termos de argúcia analítica e estilo de escrever cinema, nem André Bazin que escreveu sobre Orson Welles, nem o historiador Sadoul, nem Alex Viany, nem Paulo Emílio Sales Gomes, o crítico aristocrático dos intelectuais de São Paulo, o bacana ao lado de outra unanimidade: Antônio Cândido. 

Eis que depois de enaltecer o mestre de Glauber Rocha e Roberto Pires, os dois cineastas que fizeram nascer o assim chamado “Cinema Novo”, Gilberto Felisberto Vasconcellos, notório brizolista, desce a pua em Walter da Silveira por ter ignorado e passado ao largo da Campanha da Legalidade na Porto Alegre de 1961, momento fulgurante na história brasileira que juntou pela primeira vez o povo e o Exército contra o golpe de Estado. Walter da Silveira seria mais um comunista que não entendeu o papel revolucionário de Leonel Brizola na história do Brasil. O infortúnio que tem sido o desencontro entre o marxismo e o nacionalismo antiimperialista. 

Nelson Pereira dos Santos, natural de São Paulo, considerado gênio por Glauber Rocha, também contraiu miopia em relação a Leonel Brizola. Fato é que são muitos os quebra-cabeças neste livro, mas o principal é que o Cinema Novo, muitas vezes refratário ao “ditador” Getúlio Vargas, acabou pendendo para o entreguista Carlos Lacerda, o padrinho da telenovela Globo que seduziu os cineastas sem sólida formação política. 

A telenovela fez o cinema voltar à estaca zero. A telenovela substituiu o cinema. A telenovela é o voto. A telenovela conforma o poder do Estado. É por isso que Carlos Lacerda, golpista de 1964, figura na capa deste livro. A tese é que sem soberania nacional  inexiste cinema próprio e autônomo, portanto cineasta que não é nacionalista e antiimperialista é um badameco, fazendo a jogada do Pentágono. 

A impressão que se tem a respeito do estilo afirmativo de Gilberto Felisberto Vasconcellos, que não admite nuance de por um lado e por outro, é que a grande musa do cinema brasileiro é a direita de Carlos Lacerda irmanada ao vende-pátria Roberto Campos. A linha divisória é nação versus imperialismo. Nenhum travelling escapa dessa implacável disjuntiva histórica. 

Tenho cá minhas dúvidas se Glauber Rocha, que não foi tão brizolista como se esperava que fosse, iria gostar de ver na capa do livro a foto de Carlos Lacerda metonimicamente associada a Cinema Novo. Pode ser que ele iria curtir. Cinema Novo c’est moi. Bradou Glauber Rocha de saco cheio com outra frase: après moi o dilúvio. É que o destino do cinema brasileiro está enredado na alienação colonial, que não termina com a República ou com a pós-República. 

Gilberto Felisberto Vasconcellos parece-me um dogmático, um alucinado, que não é nem artista nem cientista. Nem mesmo sabe o que ele é, mas escreve com sintaxe e não está alheio à semântica.

Os cineastas e os críticos de cinema, segundo ele, são fracos em política, consequentemente erram quanto à compreensão do que seja democracia na história do país. Não leram Trotski nem deram importância ao seu assassinato no México em 1940. Convém não deslembrar que entre Churchill e Getúlio Vargas, o bolchevique preferiu este último. Até Glauber Rocha comeu mosca nessa do Trotski, sem mencionar Walter da Silveira. Paulo Emílio também, embora tivesse fama fictícia de trotskista. 

Ressalta-se que Glauber Rocha, dentre todos os cineastas, foi o único getuliano e depois janguista. Talvez Getúlio Vargas seja o nome que mais aparece em sua prosa, rivalizando com o de Jean-Luc Godard. Faltou mais referência à prosa e ao cinema de Pier Paolo Pasolini, lembrou o implicante Gilberto Felisberto Vasconcellos. 

Inteiramente delirante, seguindo o que ele denomina método “folkcandoblaicoparatático”, que é ininteligível para o leitor comum, sugere que Glauber Rocha teria engendrado Hugo Chávez. Se vivo fosse o cineasta, certamente iria filmá-lo em Caracas. Lamentável que a esquerda não tivesse defendido o caudilho venezuelano com afinco e lucidez. Atente-se que esse pendor militar progressista não coaduna-se com a atual chapa fardada que preside o Brasil. Isso Gilberto Felisberto Vasconcellos não explica, apenas alude à distinção entre militar e militarista. 

A burguesia civil é entreguista, mas as Forças Armadas não se insurgem contra o país ocupado pelo imperialismo.  É isso a tragédia do povo brasileiro. 

Em carta a Karl Kautsky, 1891, noventa anos antes da morte de Glauber Rocha no Rio de Janeiro, Frederico Engels constatava a desgraceira que é a existência de uma maioria reacionária e uma minoria impotente. 

Gilberto Felisberto Vasconcellos não percebeu que aí está o segredo de todos os filmes glauberianos com suas contradições sociais que não se resolvem na história, mas no plano da banda sonora. 

Gilberto Felisberto Vasconcellos não pergunta se haverá algum ziguezague entre o entreguismo de Golbery do Couto e Silva e o general Mourão do Jair. Na verdade o quebra-cabeça não é do Cinema Novo, mas sim do país submetido à dominação imperialista.

O filme Terra em Transe foi o último documento artístico que tematizou o imperialismo como inimigo de classe da nação. Quase todos os cineastas tornaram-se lacerdistas. É que não se filma mais com a ideia na cabeça de que o Brasil, revolucionado na economia e na cultura, poderia ser o sujeito da história. 

O clima atual é depressivo. O conformismo é total. Somos escravos locupletados. 
Muitas vezes no decurso do livro de Gilberto Felisberto Vasconcellos não fica claro o que é crítica e o que é anedota. Ele quer resolver o problema pelo humor, mas o humor não resolve nada. 

O Quebra Cabeça lembra um labirinto com a pergunta desagradável: como é que um cinema impulsionado pelo método marxista de Walter da Silveira desaguou na telenovela genocida da Globo. Essa e outras perguntas não são por ele respondidas. O que ele faz não é senão ensaiar uma interpretação iconoclasta do Cinema Novo. Este parece ter findado quando Glauber Rocha, vindo da Bahia, chegou ao Rio de Janeiro. 

Trata-se de uma iconoclastia ancorada no desenvolvimento desigual da regionalidade brasileira. A usurpação imperialista começa pela região mais rica explorando a região mais pobre. Choramos em vão Humberto Mauro com uma nostalgia anômala. Nesse sentido São Paulo, sede da Fiesp, é mais lacerdista do que Minas e Rio de Janeiro.

Inútil procurar no livro de Gilberto Felisberto Vasconcellos notas e referências bibliográficas esclarecedoras. É uma barafunda completa, o filósofo grego Epicuro emerge no cordel da Cuíca de Santo Amaro. 

Existe alfabeto estético, existe alfabeto político, mas não aparecem os autores lidos por ele, como se tudo medrasse de sua privilegiada cabecita. Trata-se de uma bizantinice narcísica típica de um pequeno burguês que sofre com o destino do seu país. 

Livro de um professor decadente, um socialista de cátedra, um funcionário público, não um revolucionário. 

Enfim, é para ser jogado no lixo este Quebra Cabeça do Cinema Novo? 

Respondo que não, que deve ser lido e relido com a maior atenção. 

Pode-se dizer absolutamente tudo a respeito de Gilberto Felisberto Vasconcellos, que é um contemplativo estetizante longe da militância política, um boêmio oswaldiano redivivo, mas não se diga que ele seja um epígono que deforma os ensinamentos de seus mestres. João Carlos Teixeira Gomes, o popular pena de aço como é alcunhado no Pelourinho, certa feita no teatro Castro Alves o apresentou a uma platéia de cinéfilos como escritor paulista barroco porra-louca. 

Transcorridos dois ou três meses, escreveu na finada revista Caros Amigos que não fazia a mínima questão de ser paulista porque São Paulo vampiriza as outras regiões do país. Vangloriar-se de ser paulista é obsceno. Nisso foi coerente embora espetaculoso, com Glauber Rocha em 1963 em A Revisão Crítica do Cinema Brasileiro. 

Você, Glauber, depois do filme Terra em Transe, não vai poder nunca por os pés em São Paulo, advertiu-o Walter da Silveira. A meu ver, Gilberto Felisberto Vasconcellos pegou carona nesse conceito anti-São Paulo como a locomotiva do desenvolvimento capitalista desigual. 

Injuriado e por vezes gozador, ele se insurge contra o rótulo de ser cópia de Glauber Rocha, dizendo que essa leviana acusação faz parte do manual do intelectual colonizado, ou seja, exceto papai e mamãe não se admite na vida nenhuma influência.

Evoca com gosto uma memorável conversa que ele teve com Glauber Rocha, defronte ao hotel Sol Ipanema no Rio de Janeiro, sobre o que é o intelectual paulista brasileiro depois de Paulo Emílio Sales Gomes. O cineasta falou:- “Só os grandes reverenciam os grandes”. Por aí se vê que Gilberto Felisberto Vasconcellos não padece do vício da modéstia.

* Waldo Matos Martins é jornalista e cinéfilo.

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