O inimigo interno

8 de Dezembro de 2015, por David Brooks

Tiroteio em San Bernardino
Tiroteio em San Bernardino

 
Algumas pessoas qualificam o tiroteio massivo em San Bernardino como o pior atentado terrorista nos Estados Unidos desde o 11 de setembro de 2001. Com isso florescem outra vez as especulações e análises de políticos, especialistas e agências de segurança pública sobre o inimigo que está no interior do país. 

Fala-se de um novo tipo de terrorista - criado nesse país e, por isso, difícil de se detectar - mas radicalizado (palavra que agora se define como algo negativo), que trabalha em nome de inimigos estrangeiros. 

No sábado, o secretário de Segurança Interna, Jeh Johnson, comentou que com o que aconteceu em San Bernardino os Estados Unidos passa a uma fase completamente nova com relação a ameaça global terrorista e nos esforços de segurança interna. O presidente Barack Obama abordou a nova natureza dessa ameaça e as medidas que adotará o governo para proteger o país.

Os incidentes em San Bernardino e Paris detonaram um ruído ensurdecedor e incessantes comentários nos meios de comunicação, uma retórica raivosa entre os políticos e o contágio do medo entre a população.  Tudo supões que este país está ou estará sob o ataque de estrangeiros enlouquecidos, cujo propósito é matar os estadunidenses.

Mas, o fato é que, empiricamente, a maior ameaça à segurança pública e nacional dos Estados Unidos não é a que provêm de fora, mas uma ameaça muito estadunidense e se expressa, por um lado, através de uma ultra direita que usa o mesmo vocabulário de guerra religiosa que a ultra direita muçulmana. Por outro lado, temos uma sociedade armada até os dentes, que ataca a si mesma num ritmo de, em média, um morto por cada bala disparada em cada 16 minutos.

O consenso entre os encarregados da segurança pública e nacional é de que a maior ameaça de violência armada vem justamente da proliferação de indivíduos e agrupações estadunidenses de ultra direita. Como reporta o The New Yorker, desde o 11-S de 2001 os Estados Unidos sofreu mais 65 atentados vinculados com agrupações ou ideologias de ultra direita (antifederais, supremacistas brancos, extremistas antiaborto), e somente 24 ataques efetuados por extremistas muçulmanos.

Renomados acadêmicos, que realizaram uma pesquisa com mais de 400 agências policiais do país, concluíram que para os oficiais de segurança pública a maior ameaça terrorista nos Estados Unidos não está relacionada com terroristas muçulmanos violentos, e sim com extremistas direitistas. 
Em 2014 existiam ao menos 784 grupos de ódio no país, segundo dados do Southern Poverty Law Center, o qual é especializado em assuntos de crimes de ódio e grupos de extremistas de direita.

Quase nunca se chama terrorismo aos atos de violência massiva de fundamentalistas cristãos contra, por exemplo, clínicas de aborto ou os atos de violência dos supremacistas brancos contra as igrejas dos afroestadunidenses. E, sempre é bom salientar, nessa sociedade, uma das mais armadas do mundo, se compra armas cada dia mais. 

O resultado de  cada tiroteio massivo ou atentado, junto com uma crescente sensação de insegurança pela circulação de armas, é a aquisição de mais armas, para que possamos nos defender das pessoas más, que as têm. Tanto que houve um aumento notável de venda de armas nos Estados Unidos pouco depois do que aconteceu em San Bernardino, bem como depois do tiroteio massivo praticado por um estadunidense branco no Colorado poucos dias antes. 

A mesma coisa aconteceu depois da pior balaceira massiva em tempos recentes, na qual morreram 26 pessoas numa escola primária em Connecticut, no ano de 2012. Também na sexta-feira depois do Dia de Ação de Graças, foi divulgado o número mais alto de solicitações de verificação de antecedentes ao FBI em apenas um dia (185 mil 345 pessoas), verificação essa que é o passo prévio para adquirir armas de fogo (e isso que 40% foram adquiridas no páis durante as férias ou por outras transações que não necessitam desse trâmite).

“É um escândalo moral e uma desgraça nacional que civis possam comprar legalmente armas desenhadas especificamente para matar gente com velocidade e eficiência brutal… estas são a guerra”, afirmou o New York Times em um editorial sobre armas e tiroteios massivos, publicado pela primeira vez na capa do jornal, que existe desde 1920. O editorial ainda condenou os políticos que oferecem orações para as vítimas enquanto rechaçam todas as intenções que buscam restringir a venda de armas, e ainda os acusou de distrair a população sobre a palavra terrorismo. Sejamos claros: estas matanças massivas são, todas, de certa forma, atos de terrorismo.

Esta combinação é perfeita para os ultra conservadores, ou seja, criar um inimigo externo e garantir mais armas para defenderem-se. E é isso que eles cultivam a cada dia, principalmente os direitistas republicanos que buscam a presidência da república. Eles incentivam para que os cidadãos se armem dizendo que é para defender o país das ameças externas, ou seja, os terroristas muçulmanos, migrantes (todos) ou refugiados. 

Donald Trump não para de advertir contra a ameaça dessas pessoas contra nós, repetindo que esses são tempos perigosos e que temos de atacar aqueles que nos ameaçam. Ted Cruz promete bombardear até o último homem ao Estado Islâmico e poucas horas depois do tiroteio em San Bernardino convocou seus seguidores a um evento para atirar num alvo com rifles, alegando que era para parar os maus usando nossas armas. O reitor da politicamente influente, cristã e fundamentalista Universidad Liberty, Jerry Falwell Jr, declarou ante os seus estudantes que se mais gente boa tivesse permissão para portar armas ocultas, poderíamos por fim a esses muçulmanos antes que entrem no país e que precisávamos matá-los. 

Toda essa retórica demagógica, que chega a ter cores fascistas, anima certos setores desesperados a cometer atos de violência com armas como atos de autodefesa. Estas mensagens de intolerância justificam aquilo que é, de fato, nada menos do que um tipo de loucura social de armar-se para matarem-se entre si - o que também é uma espécie de espelho das políticas bélicas usadas por esses país durante os últimos anos. Há que disparar para defender o nosso contra a ameaça que "eles" representam.

O inimigo está aqui dentro, mas não são eles, somos nós. 

(tradução do espanhol: elaine tavares)