Santos, nobel da paz

9 de Outubro de 2016, por Elaine Tavares

Santos, à esquerda, sela compromisso com as FARCs
Santos, à esquerda, sela compromisso com as FARCs

A história do Prêmio Nobel é a história da tentativa e uma redenção. Mas, isso tudo já ficou para trás. Hoje, também pode ser visto como um importante espaço da política, uma vez que, muitas vezes, sua premiação está eivada de interesses que vão muito além dos objetivos pensados pelo sueco que dá nome ao prêmio. 

Albert Nobel nasceu em Estocolmo, na Suécia, mas foi criado na linda São Petersburgo, na Rússia. Ele foi nada mais, nada menos, do que o inventor da dinamite. Apaixonado por química e pela construção civil ele partiu da nitroglicerina para inventar algo que pudesse garantir a construção de túneis e canais, tornando a construção civil bem mais criativa. Conta a história de que ele sofria muito com o uso militar que as nações estavam dando à dinamite e quando seu irmão morreu, percebeu como o mundo olhava para ele. Os jornais noticiaram a morte do irmão como sendo a dele – um engano – e nos obituários o chamaram de “mercador da morte”, por conta da ação causada pela dinamite no mundo. Ele ficou chocado.

Esse estupor pode ter sido o motivo que o levou a deixar escrito, no seu testamento, o desejo de que se criasse uma instituição para premiar pessoas que se dedicassem à paz e ao bem da humanidade. Não queria ser lembrado como o carniceiro, que estraçalhava corpos com seu invento, mas como um filantropo preocupado com o bem comum.

Assim, quando ele morreu de hemorragia cerebral, em 1896, sua herança de 32 milhões de coroas foi canalizada para uma Fundação, criada oficialmente quatro anos depois, em 1900. Seria a partir dela que os prêmios, na área da física, química, fisiologia ou medicina, literatura e paz, seriam oferecidos. A área de economia, hoje tão cobiçada, não estava listada por Nobel. Foi uma decisão do Banco Central da Suécia criar esse campo, em 1969. E, por aí, a coisa já começou a se perder, uma vez que, no mais das vezes o prêmio é concedido para quem sustenta teoricamente o sistema capitalista de produção.

O prêmio Nobel tem sido, ao longo dos tempos, uma menção de muito prestígio, além de garantir, em dinheiro, um valor de ultrapassa um milhão de euros, razão pela qual é bastante cobiçado.  

A premiação do Nobel da Paz aparentemente extrapolou a lógica. Quem levou a grana e o prestígio foi o presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, por sua proposta de paz com as FARCs. Sempre é bom lembrar que Santos foi Ministro da Defesa de Uribe e sua atuação sempre foi truculenta. Basta lembrar o episódio dos "falsos positivos", quando o exército assassinava civil e os computava como guerrilheiros.  Foi ele também que dirigiu a "Operação Fenix", que invadiu o território equatoriano e matou, inclusive, o comandante Reyes. Se em 2015 ele se rendeu às conversas sobre a paz no país, foi em razão da crescente demanda da população. Não havia como fugir desse compromisso, que foi assumido ainda em campanha, quando ele procurou se desvincular da presença incômoda de seu antigo amigo, Uribe. Então, para serem justos, os suecos deveriam ter dividido o prêmio também com as FARCs, visto que elas também se moveram no sentido de garantir o processo de paz na Colômbia. Só que o prêmio Nobel não existe para ser justo. Ele faz política.

Foi assim quando, em 2009, instituiu o Nobel da Paz para Barack Obama, o presidente estadunidense que manteve acesa uma série de conflitos violentos e selvagens no Oriente Médio. Também já premiou com o cobiçado prêmio da “paz”, outros presidentes dos EUA, como Theodore Roosevelt, em 1906. Um homem que "gostava"  tanto da paz que sua frase mais famosa era: “fale suavemente e carregue um grande porrete”. Foi também o responsável por um adendo à Doutrina Monroe, que “outorgava” aos Estados Unidos o direito de exercer poder político internacional, ou seja, de intervir em qualquer país estrangeiro conforme seus interesses, principalmente na América Latina.

Outro que ganhou o Nobel da Paz foi Woodrow Wilson, que comandou os EUA durante a primeira grande guerra, criando depois as Liga das Nações, estabelecendo os quesitos para uma paz duradoura no mundo, sempre ligada aos interesses do seu país, obviamente.

É claro que também ao logo do século XX e parte desse XXI muitos nomes importantes foram premiados, alguns realmente interessados na paz entre as pessoas e as nações. Mas, é sempre bom estar com a pulga atrás da orelha e as barbas de molho para observar os motivos de cada nome laureado. Por isso não surpreende que o presidente Santos tenha sido o vencedor desse ano. Afinal, as FARCs configuram a mais antiga força guerrilheira em atuação na América Latina, de maneira ininterrupta, e imputar ao governante colombiano a responsabilidade pela paz é uma grande jogada política. Também era preciso apagar a participação decisiva do presidente cubano Raul Castro, esse sim importante articulador entre governo colombiano e FARCs no processo que levou ao diálogo.

A Colômbia é o principal aliado dos Estados Unidos na América Latina e nesse momento de recomposição do poder nesses espaço geográfico, fortalecer ainda mais o país que detém sete bases militares dos EUA, é estratégico.  Mas a Suécia não é os Estados Unidos, diriam alguns. Sim, não é. Mas, está do seu lado.