Chile: começam os trabalhos da Constituinte

5 de Julho de 2021, por Elaine Tavares


Professora Mapuche é eleita como presidente da Convenção

O dia de domingo no Chile foi carregado de luta, conflitos e esperanças. É que foi instalada a Convenção Constituinte, com 155 membros, fruto de longas e duras batalhas populares que obrigaram o governo a ceder abrindo passo para mudanças profundas na sociedade chilena. Não bastasse isso, foi eleita como presidente da Convenção, a professora indígena, da etnia Mapuche, Elisa Loncón Antileo, arrebanhando 96 votos, praticamente o triplo do segundo colocado, um representante da direita, Harry Jürgensen, que ficou em segundo lugar com 36 votos. O grupo que redigirá a nova Constituição chilena tem maioria vinculada às pautas de esquerda e foi a união dessas forças que garantiu o nome da professora, representando assim uma vitória concreta para a população Mapuche que vive em luta permanente contra o estado chileno. 

Tem aí também um forte simbolismo que já aponta para mudanças reais na relação com as comunidades originárias, que representam mais de  12% da população chilena, sendo os Mapuche a etnia mais populosa. Esta é primeira vez na história que os povos originários tem assento em uma Constituinte, garantindo 17 cadeiras: sete para os Mapuche, duas para os Aymara e uma para cada um dos demais povos, kawésqar, rapanui, yagán, quechua, atacameño, diaguita, colla e chango.

Os territórios Mapuche só foram invadidos depois das guerras de independência, no século 19. Antes, eles mantiveram sua soberania e autonomia, sendo tratados pela coroa espanhola como uma nação. Com a chegada da República tropas militares assassinaram milhões e tomaram as terras que foram doadas como fazendas para colonos que ali se estabeleceram, gerando lutas frequentes. Depois, o período da ditadura militar as terras acabaram nas mãos das madeireiras, que começaram a derrubar as araucárias e toda a madeira da região, provocando novos levantes e conflitos. Desde há pelo menos 20 anos que a população Mapuche faz guerra aberta aos exploradores de madeira chegando a queimar fazendas e veículos de transporte da madeira. Nesse período têm sofrido sistemática e violenta repressão por parte do governo. Daí a importância – simbólica e real – de uma mulher mapuche ficar no comando da Convenção já que será da presidência que sairá a pauta do debate e toda a organização do processo.  

Logo depois de eleita, Elisa, que é professora universitária e tem reconhecido trabalho de recuperação da língua  mapudungún, saudou as gentes do Chile, em especial a sua comunidade, primeiro na sua língua ancestral e depois em espanhol: "Uma grande saudação ao povo do Chile, desde o norte até a Patagônia, desde lafkuen (o mar) até a cordilheira, nas ilhas, a todos os que escutam. Aqui estamos lamien (irmão da mulher mapuche), para agradecer a confiança, e por terem depositado seu sonho no chamado da Nação Mapuche para votar por uma mulher mapuche, para mudar a história. Nossos lamien estão muito felizes por essa força, que é para todo o Chile, para todas as regiões, as nações originárias e as organizações”. 

Por toda a Abya Yala políticos e movimentos sociais saudaram a escolha de Elisa para presidir a Convenção Constitucional e já apontam o nascimento de um Chile também plurinacional, como já decidiram Equador e Bolívia, países com maioria indígena na sua população. 

Mas, se dentro da Convenção os ânimos eram de alegria e festejos, fora dali, no centro de Santiago, centenas de pessoas que se dirigiam ao local da instalação foram reprimidas com a habitual brutalidade da polícia chilena. Também no centro da capital representantes da etnia Mapuche faziam cerimônias ancestrais para saudar os novos tempos.

Agora, os constituintes terão um ano para apresentar o texto da nova carta que será submetida à votação. Por enquanto há muita esperança de que realmente venham mudanças profundas, visto que a última Constituição chilena foi escrita sob a ditadura de Pinochet. 

¡Marichiweu! Que viva o povo chileno